Secção: Sociedade

fevereiro 19, 2004

Lisboa Atrasada

LxViva.jpg O cartão Lisboa Viva é, para mim, um dos melhores símbolos do nosso atraso. E não é só no sentido literal do termo, já que desde que algumas alminhas iluminadas decidiram arrancar com o projecto nas condições em que arrancou, isso apenas veio significar maior confusão e degradação do nível de serviço nos transportes da área metropolitana de Lisboa.

Não havia, e não há, as mínimas condições para avançar com a substituição do velho passe por este novo meio que se pretende universal e tecnológicamente mais evoluído. Falo da minha experiência, que se reporta essencialmente ao uso intensivo do Metro e CP (linha de Cascais), mas concerteza muitos utilizadores (desgraçados "utentes" sem qualquer perspectiva de subirem para o patamar de clientes) de outros meios de transporte da Grande Lisboa me poderão compreender.

Agora que voltei a ser utilizador regular das redes CP/Metro desde há cerca de um mês, resolvi, com antecedência, aventurar-me na na aquisição do super cartão. Aliás, teria mesmo que o fazer, já que o velhinho passe está moribundo. E juro-vos, tentei fazer tudo direitinho. Eu até sou um entusiasta da utilização do transporte público. De nada me valeu...

Depois de ter ouvido tanta queixa sobre a dificuldade em tirar o cartão, e já preparado para uma espera prolongada, acabou por não ser nada dramático esse primeiro passo. Animou-me. O pior foi depois. A informação sobre senhas, carregamentos e activações, é escassa e confusa. Façam a experiência, vão aqui, ou aqui, ou ainda aqui... Perto do final do mês, quando quis comprar a senha, apanhei em cheio com os aumentos (os quais pelo disparate merecem outro post) e lá tive que adiar a aquisição para um dos últimos dias do mês. Enfim, finalmente adquiri a senha, num guichet de uma estação da linha de Cascais, e nessa altura perguntei como é que poderia usar o cartão no novo sistema de acesso do Metro (não que alguém tenha tido o cuidado de me avisar... eu é que sou esperto!). O funcionário lá me disse que ali "não se activava nada", tem de ser no Cais do Sodré. Aí, e após uma espera de bastante tempo, enquanto um homem lutava desesperadamente com uma maquineta complicadissima que faz o tal processo de activação, esta acabou por levar a melhor e o homem, desistindo, lá avisou a longa fila que "isto deixou de funcionar, passem cá noutro dia...". Mais tarde, noutra estação de Metro, lá me activaram o cartão, ou pelo menos disso me convenci.

Assim, no primeiro dia útil do mês, lá estava eu perante aquele espéctaculo desolador que são as filas para a entrada no Metro do Cais do Sodré. Qual não é o meu espanto quando vejo que precisamente naquele dia (o primeiro da obrigatoriedade do Lisboa Viva...), precisamente naquela hora (9 da manhã...), precisamente naquela estação (só uma das mais frequentadas...) as tais almas iluminadas tenham entendido que era a altura certa para "testar" o novo sistema de acesso! Concerteza que eu não percebo nada disto, quem tomou a decisão deve estar na posse de elementos que indicam com clareza ser aquele o ponto ideal, de toda a rede, já que grande parte das outras estações continuavam em sistema de livre acesso. E após uma espera ansiosa, não é que o meu cartão não funcionou!? O fiscal, zangado, reencaminhava toda a gente (muitos como eu) para a bilheteira. Nova fila, novo desespero. De 3 guichets, apenas 2 estavam a funcionar. Quando finalmente cheguei à frente, ainda tive que ver a expressão paternalista de quem me "voltou a activar" o cartão, dizendo-me: "...não senhora, não estava nada activado...". A cereja em cima do bolo foi no fim do dia, na viagem de regresso, ainda com pouca sensibilidade para a temperamentalidade das maquinetas fui vítima de um violento entalão, que só por sorte não se traduziu numa ida ao hospital.

Tudo isto me entristece, não tanto pelas peripécias, mas sobretudo pela não novidade na forma como tudo tem sido conduzido pelos responsáveis (que nem sei quem são...). Este tipo de mudanças apenas poderia ser levada a cabo e conduzida por uma entidade qualquer acima das empresas transportadoras, cada uma a gerir a sua quinta de forma diferente. Os Alfacinhas tinham um sistema antiquado, mas que funcionava. Todos os meses lá se ia comprar a senha (quem queria fazia-o com antecedência), que funcionava de forma uniforme e simples em todos os meios de transporte. Agora, com um cartão tecnológico, continuamos a ter que comprar a senha, e depois fazer o estúpido processo de activação. E ainda estou para ver se não será impossível activar o novo mês com antecedência! Afinal, o processo pressupõe que a senha já esteja colada no cartão...

A única entidade que estava preparada para tirar partido da nova tecnologia, o Metro, afinal é aquela onde as coisas correm pior, já que o novo sistema de acesso, ou melhor, a sua implementação, é das coisas mais escabrosas que já vi. É por demais evidente que o sistema não foi testado antes de ser posto em funcionamento. Por outro lado não estou a ver a CP, que recentemente instalou também novos aparatos para controle de acesso, por sinal bem mais inteligentes que os do Metro, a mudar tudo num prazo curto, o que significa que a aquisição "provisória" da senha é tão provisória como muitas das instalações escolares que funcionam por esse País fora.

A única decisão racional seria adiar o arranque disto tudo, aguardar que as principais empresas (Carris, Metro, CP, RN) estivessem preparadas. Tal decisão só poderia ser tomada se estas coisas fossem geridas de forma integrada. O principal problema dos transportes públicos (para além da mentalidade vigente, mas isso é outra conversa) é a não existência de uma "cultura de interfaces". Não há coordenação nenhuma, não há informação adequada nem consistente, não há esforço para garantir a quem viaja ligações eficientes (por vezes até parece que o esforço é no sentido oposto). O cartão Lisboa Viva, o seu desgraçado arranque, são apenas mais um dos sintomas deste triste estado de coisas.

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fevereiro 17, 2004

Rentabilidade

Não pude deixar de pensar nas queixas do Francisco e na réplica, realista e pragmática, de LR, quando esta manhã me dirigi ao "meu" banco para fazer um depósito. E lá está, preto no branco, às 23:55 do mesmo dia, a confirmação da indisponibilidade do valor depositado, em numerário, há mais de 14 horas...

Já me habituei (e não devia, não deviamos), à forma como os "nossos" bancos nos tratam. Histórias de comissões e confusões tenho muitas para contar, mas uma coisa posso garantir: este "meu" banco é aquele com que mantenho uma relação comercial há mais tempo (pelo menos há 14 anos) e não me lembro de alguma vez ter detectado a aplicação desta "directiva dos anos 80...". Logo, apenas vejo nisto mais um capitulo da novela que tem sido nos últimos anos a conquista desta rentabilidade da "nossa" banca à nossa (sem aspas) custa.

Desde o ínicio do "net-banco" que sou um entusiasta do mesmo. E os bancos bem se esforçaram para me incentivar neste meu pioneirismo. Há uns anos quase todas as operações feitas pela internet (ou telefone) eram gratuitas, ou pelo menos mais baratas, que ao balcão. Compreende-se, é racional que assim seja. Nunca tive ilusões sobre o facto de essa "oferta" ser temporária, mas vejam lá se não é ridículo o meu percurso desta manhã: franqueio a porta do "meu" banco e dirijo-me a uma caixa multibanco (que por acaso está dentro do balcão). Levanto dinheiro de uma conta minha sediada neste "meu" banco. De seguida pego na massa e deposito-a, ao balcão, noutra minha conta, no mesmo banco. O resto da história já conhecem, deixei de poder mexer no dinheiro por um dia... Mas o mais interessante é constatar que esta é única forma que eu tenho de fazer uma transferência (entre contas no mesmo banco!) sem pagar comissão... (e não me falem no MB porque o cartão da conta de onde levantei o dinheiro não tem essa opção, dizem-me que é "por ser de uma empresa..."). Se me dissessem há 5 anos que em 2004 a opção mais económica para o cliente voltaria a ser o uso do balcão eu rir-me-ia...

Mas o mais risível é outra novidade que este "meu" banco introduziu à uns meses. De cada vez que é recebida uma transferência interbancária na tal conta da empresa é cobrada uma comissão (com um obscuro título de "portes"...) de 40 cêntimos!

Não tenho nada contra a rentabilidade, até sou por natureza a favor do mercado livre e da livre contratação de bens e serviços. Mas cada vez tenho menos paciência para estas alterações comunicadas em letrinhas tão miudinhas que nem se vêm.

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janeiro 23, 2004

Consciência Colectiva

A questão da votação sobre uma eventual descriminalização do aborto fez acordar de novo a eterna dialéctica entre a liberdade de voto, o chamado “voto de consciência”, do deputado e a obediência ao sentido definido pelo partido que o elegeu. É uma daquelas matérias em que simultaneamente se observa a fragilidade e a força do nosso sistema parlamentar.

Nunca consegui formular uma opinião definitiva sobre quais as circunstâncias em que se justificaria, de pleno direito, a prevalência da liberdade plena do deputado para votar de acordo com aquilo que se convencionou chamar como a “sua consciência”. De cada vez que ouço debater o tema, apesar da minha natural simpatia para com qualquer posição que defenda a liberdade de pensamento de qualquer indivíduo, não consigo deixar de me recordar das minhas idas às urnas. Os boletins de voto não são personalizados, de forma que eu, e penso que a maioria da população eleitora, não vota no deputado pela pessoa individual que ele é, votamos todos em grupos, nos partidos. Essa é a base da nossa democracia, e não cabe aqui a discussão da bondade, ou não, do sistema. A não ser pela lembrança do lugar comum de que, até ver, não se arranjou melhor.

Neste sentido parece-me uma perversão do sistema, que após a eleição, apareça como factor de decisão o pensamento específico de cada deputado. Tal não me parece honesto. Mas mais importante, e para não ser sectário, é saber qual a representatividade das consciências de 230 cidadãos, em relação ao universo da população votante. Os eleitores votam na consciência colectiva, de grupos de pessoas, consubstanciada nos programas partidários e, salvo raras excepções, não conhecem de todo as consciências individuais. Repito que não estou a julgar este sistema como bom, ou menos bom, apenas a recordar as regras do jogo.

Claro que tudo isto faz muita confusão ao meu espírito eminentemente liberal. Não gosto de rebanhos, a não ser de verdadeiras ovelhas. E tentando resolver o meu próprio conflito de consciência, tentarei outra perspectiva. No fundo o problema coloca-se sempre que se admite não existir uma predominância da ideologia colectiva sobre a consciência individual, ou seja, quando se toma como desejável ser um pensamento livre sobre determinada matéria, o melhor dos factores para a decisão do sentido de voto. São as questões supra-partidárias. O regime legal sobre aborto é um bom exemplo disto. Ora para estas questões parece-me muito mais sensato recorrer a todas as consciências, não apenas a uma amostra de 230 “homens bons”. A AR não é um senado. A conclusão a que chego, sobre a questão de principio, já que não me interessa nada discutir os jogos de interesses e poderes, ou eventuais divisões dos blocos, seja à esquerda, seja à direita, é que, nas circunstâncias que poderiam justificar as posições de consciência individual, quase sempre será preferível o recurso ao referendo. O que me agrada muito mais que esta necessidade de imposição de disciplina de voto. A democracia lida muito mal com imposições.

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janeiro 12, 2004

Alfacinha Fedorento

A principal conclusão de um estudo efectuado pela secção de investigação da Casa Pia de Lisboa, a que o Alfacinha teve acesso exclusivo, sustenta ser a existência de escolas secundárias um dos principais locais de captação de menores para as redes de pedofilia e pornografia. De acordo com este trabalho de natureza científica, vai ser feita uma recomendação no sentido de reduzir o número de escolas por forma a evitar a escalada do fenómeno. Este trabalho surge na sequência de outros estudos publicados na imprensa britânica.

Publicado por alfacinha em 06:18 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

janeiro 08, 2004

dezembro 16, 2003

Consciência

Num artigo com o qual genéricamente concordo, Helena Matos (via Mata-Mouros), utiliza um argumento que muito ouvi quando do referendo, e que agora volta à baila: "não se referendam questões de consciência". Abordar a despenalização e/ou descriminalização do aborto sob a perspectiva da consciência sempre me pareceu errado. O resultado é eternização do debate, já que a consciência é individual e portanto uma decisão colectiva sobre questões de consciência é sempre coerciva. Mas, mais importante, é a confusão permanente entre os impedimentos legais (criminais ou não) e a possibilidade, que fica sempre a cargo da consciência de cada um, de abortar ou não. Possibilidade não significa aprovação. Não consigo entender como é possível manter a proibição legal e simultaneamente fazer desaparecer as penalizações, para evitar os embaraços que são os julgamentos.

Para além disto tudo, parece-me uma grande falta de respeito pensar em despenalizar o aborto, sem recurso a um novo referendo. Se não tivesse havido o outro (com a concordância de todo o espectro político), seria legítima esta pretensão, mas houve, e, seja qual for a leitura que se faça, ficou bem claro o que a população Portuguesa pensa sobre o assunto.

Estou à vontade para dizer isto. Sempre defendi a completa despenalização do aborto. Não sou um adepto de referendos. Mas, tendo-se feito, como se fez, há que respeitar os seus resultados, ou no mínimo convocar outro.

Publicado por alfacinha em 06:37 PM , Comentários (3) , TrackBack Secções Sociedade

dezembro 14, 2003

Prisão

É sem dúvida uma boa notícia, a prisão de Sadam. Felizmente está vivo, o que diminui consideravelmente a probabilidade de "martirização". Espero que seja possível (embora difícil, no ambiente insano e explosivo daquele País), fazer um julgamento público e esclarecedor. Isso, sim, seria uma vitória da civilização.

Publicado por alfacinha em 12:36 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

dezembro 13, 2003

Bloco Central

Cada vez ouço mais por aqui e por ali aquela ideia, tão politicamente correcta, que defende o pacto de regime entre os 2 maiores partidos, como a solução universal para todos os problemas endémicos do País. Esta ideia está, quase sempre, associada a outra também muito na moda, a de que a política é uma actividade parisita e prejudicial à sociedade. Estariamos bem no dia em que "eles", sendo este "eles" uma massa comum em que tudo se confunde, fossem corridos e a governação fosse exercida por técnicos qualificados nas diversas áreas. O lamento é quase sempre o mesmo: "mudam os governantes e fazem sempre questão de fazer o contrário dos anteriores". Pois ainda bem, digo eu, estranho seria o contrário. Cada vez tenho menos paciência para todos aqueles que dizem ter os Portugueses menos paciência para a política.

Publicado por alfacinha em 01:13 PM , Comentários (3) , TrackBack Secções Política , Sociedade

dezembro 02, 2003

Informados e Limpos

Desculpem lá mas agora vou ser politicamente incorrecto.

Parece-me muito bem a pedagogia dos "comportamentos de risco" versus "grupos de risco". Parece-me muito bem o esclarecimento de todos aqueles que ainda partilham o medo do aperto de mão. Mas confesso que cada vez tenho menos paciência para este mito dos nossos tempos sobre as virtudes da educação e informação.

Há muito boa gente convencida que é possível impedir a transmissão de doenças simplesmente através do fornecimento compulsivo de doses maciças de informação. Um pouco como aqueles que acreditam ser o tabaco a única causa de cancro do pulmão. Sinceramente, hoje em dia só não sabe como a SIDA se transmite, quem NÃO quer saber.

Aquilo que todavia mais me irrita é um tom moralista sub-reptício, muitas vezes latente no discurso sisudo dos iluminados. Se algum dia esta gente conseguir domesticar e condicionar a natural rebeldia da adolescência, "falando abertamente de tudo e mais alguma coisa", então sim teremos uma sociedade doente. Informada, não fumadora e limpa, mas doente. Já faltou mais.

Publicado por alfacinha em 04:19 PM , Comentários (1) , TrackBack Secções Sociedade

novembro 22, 2003

Luz

A Aldeia da Luz representa um bom exemplo da atitude de recusa do luto, e respectivas consequências. Há algumas dezenas de anos, seria impensável a reconstrução mimética de toda uma povoação, perante o avanço do “progresso”. E se é evidente que o choque psicológico infligido aos desalojados (de forma irreversível), na hipótese de não se construir nenhuma “nova aldeia”, seria, num primeiro momento, com certeza superior, já não é tão evidente a vantagem a médio e longo prazo.

Para além do projecto, para além dos holofotes, que agora se começam a apagar, os habitantes são agora confrontados com uma realidade física, que quanto mais parecida se faz à memória afectiva, mais torna esta última presente, e portanto mais lhe faz sentir a falta. É como se a uma mãe, lhe fosse tirado um filho, e depois se lhe entregasse uma “réplica”. Quanto mais perfeita, do ponto de vista da semelhança, maior a dificuldade em superar a dor pela perda.

Claro que o que aparece são todas as queixas pelo não funcionamento disto o daquilo. E pode-se tentar prosseguir a ilusão. A questão, vista de uma forma superficial, será o cumprimento de todas as promessas feitas à comunidade, na tentativa de conseguir ao mesmo tempo, a réplica da “velha aldeia”, mas com todos os confortos inerentes a qualquer obra nova. Nesta equação, tão positivista, falham os factores mais importantes: a vida, a morte e a memória afectiva. A essência da vida, que os habitantes não sentem no novo largo, tão vazio, tão despido. E talvez a não presença dos habitantes no largo seja a sua forma de tentar reencontrar aquilo que lhes tem sido negado: a possibilidade do luto. Só quando o novo largo se não parecer com o velho, poderá aquele substituir este. Até lá, apenas jornalistas e turistas o visitarão.

Publicado por alfacinha em 01:51 PM , Comentários (1) , TrackBack Secções Sociedade

novembro 09, 2003

Confusão

Ao ouvir Joaquim Vieira, num debate (Directo ao Assunto, TSF) sobre Deontologia e Jornalismo, tentar justificar o injustificável, evocando conceitos como “Liberdade de Expressão” e afins, para “contextualizar” o desgraçado panorama de selva e recuo civilizacional que se vive na comunicação social, ocorreu-me um pensamento. Por todo o lado, a propósito de violações grosseiras de regras de conduta, de atentados ao bom-nome, quase sempre ligados a estratégias comerciais, se tem evocado esta “perspectiva liberal”, se tem justificado com o palavrão da liberdade toda a infâmia.

Há aqui uma confusão terrível. A questão da liberdade de expressão, ou falta dela, coloca-se sempre que um determinado poder, normalmente politico, impede ou reprime a expressão, a divulgação de determinado conteúdo, fazendo uso de instrumentos de censura, policiais ou outros. Tudo isto é característico da sociedade não democrática, do poder não eleito, do sistema não controlado pela população. Por outro lado o controle sobre o cumprimento da legislação, inerente ao exercício do poder democrático, nunca pode ser confundido com censura. É aliás um dos garantes da própria natureza democrática da sociedade. Confundir a intervenção do poder, neste sentido que visa precisamente garantir a preservação da liberdade, com uma qualquer censura, evocar constantemente o direito à liberdade de expressão, é um insulto a todas as verdadeiras vítimas de actos de repressão ou censura.

Publicado por alfacinha em 11:52 AM , Comentários (1) , TrackBack Secções Sociedade

outubro 22, 2003

Critério

Qual é o critério para a indignação?

António José Teixeira, quando do caso da Filha do Ministro, indignou-se e repetiu até à exaustão a sua indignação pela cunha. Jorge Sampaio nada disse. Tudo isto no fim de semana em que se iniciava a crucial CIG. Nenhum deles proferiu qualquer frase do estilo "o País está distraído", ou seja, o tema mais importante desses dias era mesmo o fait-divers ministerial.

Agora, que se coloca a questão da cunha a outro nível, os papeis inverteram-se. Jorge Sampaio, com aquele arzinho levemente indignado (com "classe" dizem...), decidiu admoestar a populaça, alertando para os verdadeiros problemas do País. AJT, sereníssimo na sua mediocridade, concorda plenamente e agora já só fala da CIG.

Publicado por alfacinha em 11:43 AM , Comentários (3) , TrackBack Secções Política , Sociedade

outubro 18, 2003

Autoridade

De que servem declarações indignadas, emocionadas ou frases do género "isto é assunto encerrado!", proferidas pela direcção do PS, ou por João Pedroso, ele próprio responsável pela divulgação de escutas?

Estes senhores estão a ser vítimas do seu (desastroso) comportamento em todo este processo. A única atitude possível para um responsável político ou judicial, envolvido ou não no processo, seria a da contenção e condenação absoluta e inequívoca de toda e qualquer violação do segredo de justiça. Quem não o fez no passado, preferindo enredar-se e alimentar boatos e jornalismo tablóide, ajudando a credibilizar teorias e comportamentos estranhos à necessária dignidade institucional, não pode agora recusar a natural continuação do jogo ou deixar de sofrer as consequências de ter brincado com o fogo.

A reacção corporativa judicial, que se manifesta por exemplo nas declarações do sindicato dos juízes, no segundo acordão da relação, e (aparentemente) está na base desta nova violação do segredo, é lamentável e altamente condenável. O problema é que pessoas como Ferro Rodrigues, Ana Gomes ou João Pedroso, não possuem qualquer autoridade para apontar o dedo. Abdicaram dela em sucessivas declarações e comportamentos.

Publicado por alfacinha em 01:10 PM , Comentários (4) , TrackBack Secções Política , Sociedade

outubro 12, 2003

Privilegiados

RJP é de facto um privilegiado. Apesar de não residir em Lisboa, como trabalha no centro, e habita na linha de Cascais, perto de uma estação de comboio, pode dar-se ao “luxo” da deslocação pendular em transportes públicos.

Seria interessante fazer uma estatística. Quantos privilegiados se encontram nas mesmas circunstâncias, e tomam uma opção semelhante? Quantos moradores de Algés, Paço d’Arcos, Oeiras, Carcavelos, Parede, Estoril e Cascais, a uma distância humana das respectivas estações, fazem diariamente um percurso semelhante ao de RJP, ou seja, de suas casas para qualquer uma das (muitas) zonas servidas pelo Metro?

Tem razão quando diz que o morador em Tires, trabalhador em Campo de Ourique, não tem a vida fácil. Mas para cada um desses, será fácil encontrar, com certeza, um outro qualquer morador no Cacém, trabalhador em São Sebastião da Pedreira, ou mesmo um que residindo na Pontinha, se desloca diariamente para o Martim Moniz. Assim, sem a estatística, arrisco todavia um palpite empírico que não deverá suscitar muita contestação. Pelo menos metade da população que utiliza o automóvel, entre os arredores e Lisboa, tem à sua disposição uma alternativa semelhante à de RJP. Não a seguem, porque não querem.

De resto o que pensava em Julho, continuo a pensar. A desistência por parte dos utentes não ajuda nada a melhorar a rede de transportes públicos. A Carris atravessa uma crise, essencialmente por isso mesmo, e o Metro tem aumentado a rede sobretudo pela crescente procura. Claro que todas as melhorias são insuficientes. Mas, considerando um cenário de diminuição de utentes, com poucas excepções, não podemos culpabilizar as empresas de transporte pelo actual estado de coisas.

Podemos continuar a achar que a solução passa apenas pela boa canalização do investimento público, e sem dúvida que esse aspecto é importante, casos como a idiotice do túnel do Marquês não ajudam nada, mas não devemos esquecer a variável mais relevante para o sucesso de qualquer empresa: a existência de clientes.

Publicado por alfacinha em 12:28 AM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

setembro 30, 2003

Encontro

Mais tarde ou mais cedo, se não agora, num qualquer reality show no futuro, o encontro entre o espectáculo e a morte terá de se dar. Paradoxo cruel.

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Loja do Cidadão

Do desgraçado legado da era de Guterres, ficou como muito positivo, o lançamento das Lojas do Cidadão. Sendo fã desde o início tenho pena que, depois do entusiasmo inicial, não só a rede não se tenha alargado tanto quanto seria de esperar, mas sobretudo que não esteja à vista a concretização do passo seguinte. Este seria a prestação de serviços ao cidadão de forma efectivamente centralizada, em que, para além da proximidade física, fossem criados gabinetes inter-ministeriais.

Um bom exemplo neste domínio são os Centros de Formalidades das Empresas, os quais, à semelhança das LC, permitem aos empresários, tratar de assuntos das empresas num mesmo local. Mas aí, foi dado um passo revolucionário, no que toca à filosofia habitual de atendimento ao público na administração pública. Foi criada, dentro dos CFE, uma área central de recepção do empresário, que não só funciona como recepção para os diferentes serviços (Finanças, Segurança Social, Conservatória, etc), como acompanha o utente em todo o processo, esclarecendo dúvidas, preenchendo formulários e coordenando o atendimento em cada um dos serviços. Nem parece que estamos em Portugal, tal a boa vontade e espírito de verdadeira colaboração que existe. Esta foi pelo menos a minha experiência há uns anos em Lisboa.

Infelizmente as Lojas do Cidadão têm sido noticia apenas pelas repetidas greves, sintoma claro do abandono a que o projecto tem sido dedicado. Se tal se deve ao facto da ideia não ser deste governo, é de lamentar a tacanhez de tal atitude. Esperemos que não, e que as LC apanhem o comboio da desejada reforma.

Publicado por alfacinha em 10:16 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

TAP

Depois de ter chegado a uma situação insustentável, numa época em que tal não se justificava, a TAP, deixou de ser notícia desde que entrou em rota de recuperação. Por boas razões. Os trabalhadores e Fernando Pinto, merecem o reconhecimento do País, pelo bom exemplo que têm dado, desde há 3 anos a esta parte, e numa conjuntura cada vez mais desfavorável, colocando os interesses da empresa à frente dos seus próprios privilégios. Recusando a cedência à facilidade que seria a modificação dos objectivos neste ano tão difícil, e apesar da "ajuda" envenenada de Cardoso e Cunha, Fernando Pinto fez-se excepção, em terra de mediocridade. Os resultados estão à vista, e deviam fazer pensar todos os que enchem a boca com a questão do deficit.

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setembro 28, 2003

Apagão do Positivismo

.Mas deve ser de mim, que soçobro sentimentalmente à ideia positivista do progresso, mesmo apesar das minhas resistências filosóficas..

Aproprio-me, com despudor, desta frase (magnífica) para lhe acrescentar uma terceira dimensão, o choque da realidade, que brutalmente amplifica a dúvida filosófico-existencial. Para além da ressonância emocional, e da questão intelectual, esta vaga de .apagões., provoca em mim uma insegurança básica sobre os próprios fundamentos da sociedade do conforto e bem-estar. Preocupa-me pouco a eventual identificação ideológica das falhas, e muito mais a possibilidade que estas possam ser, na sua desmultiplicação em velocidade de cruzeiro, apenas um sintoma de um colapso mais globalizado. Um cenário alternativo ao final do Planeta dos Macacos, no qual a civilização não teria soçobrado vítima de uma grande explosão em formato de fogo-de-artifício violento e tecnológico. O .gran finale., o apocalipse, teria sido afinal uma implosão em larga escala. Como se alguém tivesse desligado a ficha.

Publicado por alfacinha em 01:28 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

setembro 26, 2003

Populismo

Anda um cidadão, normalmente informado, desligado do mundo, quando lhe dizem, numa noite, existir um escândalo gravissímo, com helicópteros e bombeiros, lá para os lados de Lamego. No dia seguinte, liga a rádio de manhã, e percebe que o País está parado, a acreditar nos blocos noticiosos que se sucedem, tudo por causa de "frases infelizes" envolvendo bombeiros, hélicópteros e camarões. À noite, numa tentativa de saber o que realmente se passa de importante, o cidadão começa a ficar preocupado. Aparentemente todo o País continua parado, já que, de 3 noticias em destaque, 3 são sobre o "importante assunto da actualidade", sucedem-se demissões, contra-demissões, apoios, contra-apoios e solidariedades a todos os níveis. E assim, num ápice, toda uma classe passa de bestial a besta por causa de um pratinho de camarões. Imagine-se as discussões que esta febre deve ter alimentado nas tascas do costume, onde se terá já concluido, à volta de um pratinho de camarões e respectiva imperial, de quem é, afinal, a responsabilidade última dos graves incêndios.

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setembro 13, 2003

As voltas que a vida dá...

Não deixa de ser curioso constatar que as mais fortes manifestações de moralismo por estes dias, venham sobretudo da parte dos soixante-huitard.s ou seus descendentes.

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setembro 04, 2003

Justiça e Gravatas

Inverti os termos, que é para ver se baralhando e voltando a dar isto sai melhor. O Catalaxia que me está a tentar arranjar sarilhos qualificando-me superlativamente (o que vindo de onde vem é uma honra), veio em auxílio do digníssimo advogado nortenho, e desmontou despudoradamente o meu artifício amalgamante. Bolas, e não é que tem (têm) razão!?

As gravatas serão objecto de análise posterior (é o que está a dar) por aqui, continuo a ter muitas dúvidas sobre as mesmas. Quanto ao resto nada a dizer, excepto um desejo, que a dignidade necessária à Justiça não advenha apenas do teatro, mas que esse teatro reflicta a seriedade de todos os actores envolvidos.

Publicado por alfacinha em 09:27 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

setembro 03, 2003

Dúvida II

Está disponível no EuroNews (secção Europa, Europeans) uma reportagem optimista sobre o trabalho que uma organização não governamental (ASB), está a desenvolver na Croácia promovendo o regresso de refugiados Sérvios às suas terras.

É dito na reportagem que as organizações de ajuda humanitária registam uma diminuição das tensões, na sequência do fim do regime autoritário de Milosevic. É simpático acreditar que as diferentes etnias têm condições de coexistência pacifica, finda a guerra e com regimes democráticos mais evoluídos. Nesse sentido, poder-se-á entender a ajuda externa a uma reconciliação, partindo do regresso dos refugiados à sua terra natal, como um factor que acelere esse processo, difícil e complexo, de enfrentar os traumas. O sucesso deste empreendimento, com a manutenção da paz, é seguramente algo que todos os bem-intencionados desejam.

Mas será que é mesmo assim? Por muita que seja a dor, o trauma, o efeito desestabilizador que o desenraizamento de populações provoca, será que a ajuda externa, ao forçar o regresso, não está a contribuir para reacender velhos azedumes? Será possível a estes povos uma vida em comum? A reportagem neste ponto, não me descansa, fico com a sensação que, mesmo quem vive o acontecimento, não consegue verdadeiramente responder a estas questões.

Publicado por alfacinha em 10:51 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

Dúvida I

Cansado de certezas apetece-me neste momento falar da ausência delas. Começo com uma suscitada por dois posts no Mata-Mouros.

Nunca consegui ter uma posição bem definida sobre a questão .seriedade e gravata. (reportando-me à frase de Rui Zink citada num post anterior). Sendo sensível à argumentação sensata e racional de CAA, não deixo de sentir como válido aquilo que CL afirma. Não acredito que os monges se façam pelo hábito. Quando tal acontece o resultado é um não monge, apenas disfarçado. Dito isto pergunto, numa sociedade que está habituada a ver os monges vestidos como monges, que significado poderá ter a atitude deliberada de rebeldia de um monge que não lhe queira vestir o hábito? A ser verdade que é rebeldia, não será isso prejudicial do exercício da função que desempenha? Uma resposta a esta questão apenas pode ser encontrada caso a caso, e de acordo com a motivação individual. Daí a (minha) dificuldade em sentir como .boa. ou .má. a diferença assumida de Rui Teixeira.

Publicado por alfacinha em 09:44 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

Preto & Branco, Branco & Preto

Gostaria também de dar uma achega à questão abordada pelo Terras do Nunca, Abrupto e Almocreve das Petas.

O posicionamento político de cada um assenta, em minha opinião, na reflexão prévia sobre o papel do indivíduo face ao colectivo (e vice-versa). Daqui resulta a posição de base, a qual pode ser de direita ou de esquerda. Mais ou menos consciente, é uma espécie de axioma, ponto de partida para o pensamento sobre questões concretas. Neste sentido é político, todo o pensamento e comportamento face a questões sociais.

Mas estamos a falar de seres humanos. A natureza humana é evolutiva, dada a duvidar de tudo, em cada instante. O que hoje é verdade, amanhã, pode não ser. Não existiria civilização, se não se pusesse em causa o que está adquirido. A semente da mudança está sempre naquilo que é seguro, estático. Pode-se aceitar isso, enriquecendo, ou negar, empobrecendo. E aqui podemos perceber outra dimensão individual, que os americanos abordaram, no polémico estudo sobre conservadores e liberais. A minha visão sobre esta dimensão é que ela se refere menos à dicotomia direita/esquerda (ou mesmo conservador/liberal), e mais ao grau de rigidez mental. Penso que nestes termos podemos falar, não de opções politicas, mas sim de formas de pensar. Mais que a mudança em si, o importante é a aceitação do diferente. Se este se constitui como ameaça, ou não. O diferente é sempre uma ameaça para quem não quer olhar para a sua própria dúvida. Desloca-se o ódio que se sente perante a incerteza interna para o outro, constituído como reflexo negativo. É importante que ele exista, e que por sua vez também não se questione. Caso contrário é o vazio.

Considero irrelevante para esta abordagem, obviamente discutível, todo um debate que se possa fazer sobre o centro, se ele existe, onde é que está, se se deslocou, ou não, após o colapso comunista. O resultado dessa discussão não altera a questão de fundo, na minha óptica, que é a maneira como cada actor político decide desempenhar o seu papel. Se o papel é esquerda, direita, liberal, conservador, libertário, não interessa.

Como em quase tudo na vida, existe a coisa e a forma como se lida com a coisa. Neste sentido, admitindo uma radical divergência (politica) entre extrema-esquerda e extrema-direita, percebemos uma aproximação no modo de (não) pensamento. Essa aproximação traduz-se na incapacidade de diálogo, de escuta do outro. Um debate entre um militante (a palavra diz muito. não se conhecem militantes do centro) do Bloco de Esquerda e um Neo-Nazi é uma experiência estéril. Nada de novo surge. De certa forma a existência do Neo-Nazi é fundamental para descansar a mente assustada do bloquista. E vice-versa. Mas, verdadeiramente, não discutirão opções políticas. O modelo de sociedade que ambos defendem, não permite ao indivíduo a discordância. A insistência nas causas das minorias, surge pela impossibilidade de aceitar a pluralidade da maioria. O texto pode ser diferente, mas a declamação enfática é a mesma.

Publicado por alfacinha em 01:55 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Política , Psi , Sociedade

agosto 31, 2003

Pergunta Complicada

É pois. Nos dias seguintes ao 11/9 perguntei o mesmo por aqui e por ali. Durante anos os milhares de vítimas na Argélia, para citar uma realidade mais próxima que a África negra, me impressionaram. Durante anos não mereceram mais que notícias de rodapé e reportagens que, por serem tão lúcidas, não eram mediáticas. A única resposta que me ocorre é que o relativismo mais que uma questão de principio é sintoma de etnocentrismo. Najaf não tem a ver connosco, é lá com eles.

Publicado por alfacinha em 02:28 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Política , Sociedade

agosto 30, 2003

Todos

Não partilho do optimismo de CAA do Mata-Mouros. Tem razão quando diz "Ainda bem que, desta vez, todos falam disto!", mas a maior parte deste "todos" não está minimamente preocupada com a discussão séria do tema. Para além dos interessados (arguidos, respectivos advogados, vítimas, Casa Pia), os quais estão obviamente interessados em fomentar o debate no sentido de aproveitar a onda mediática a seu favor, sinto que, com grande ajuda do mau jornalismo, a discussão se situa nos antípodas dos nobres objectivos afirmados por CAA nas suas intervenções. Do que "toda a gente fala", a pretexto so segredo de justiça, a pretexto da prisão preventiva, é da culpabilidade ou inocência das figuras envolvidas, da bondade de intenções ou não do Juiz, não do sistema.

Apesar de ter visto apenas o segundo debate na SIC, gostei, como não profissional da justiça que sou, do que vi. Posso entender que um profissional da área, como CAA, sinta que é pouco, que é redundante, mas é seguramente de excepção, discutir-se frontalmente aquilo que é suscitado por este caso, sem cair no erro que é falar apenas do caso. Quantas vezes na comunicação social (que deveria fazer mais vezes jus ao seu papel "social") se dá tempo de antena a um Juiz para a explicação serena da distinção importante que deve ser feita entre os "magistrados", o "ministério público", os "juízes"? Não é questão de somenos, a maior parte da população, embalada pela cantiga do costume do "eles são todos iguais", não faz esta destrinça. Só vê, de um lado, a polícia e os tribunais (metendo-se aqui dentro tudo, juízes, magistrados, etc), e do outro os arguidos e seus advogados. Como se fosse um filme de cow-boys.

Espero que CAA tenha razão, contributos como o dele, que vem dedicando posts exemplares sobre o tema, recusando a discussão da culpabilidade das pessoas concretas e todas as cabalas, são importantes. Pode ser que se venha a rever. Apenas me pareceu importante fazer esta apontamento, e espero por mais debates como o que vi ontem.

Publicado por alfacinha em 02:26 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

agosto 29, 2003

Luto

A mesma sociedade que elegeu a adolescência como a geração de ouro, elegeu o luto como o tabu supremo. Pela minha parte lamento que social e individualmente se ande a fingir que o luto é uma coisa ultrapassada. A fingir sim, porque ainda não se conhece cura para a morte, e tudo, mesmo tudo, o que existe, pessoal ou materialmente, tem um fim. Nada se pode construir de novo sem luto. O luto desempenha uma função fundamental na possibilidade de voltar à vida. Se não se faz o luto, o que nos abandona fisicamente nunca nos deixa a alma. E uma alma cheia, superlotada, não é mais viva que outra que se renova. Está, paradoxalmente, mais perto da morte.

Publicado por alfacinha em 10:45 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

Alternativa II

Antecipando-me à prometida resposta do Cristovão-de-Moura, ao post do Carimbo, gostava de, mais uma vez, ser destrutivo, isto porque continuo sem alternativa.

Não vejo qualquer vantagem em impedir o acesso ao voto a eleitores abstencionistas (por exemplo que não votem 2 vezes seguidas). Para quem não vota porque não quer votar nunca, o efeito é nulo. Ou seja, a sanção não tem qualquer efeito punitivo. Por outro lado, se um determinado eleitor não vota em dois actos eleitorais seguidos, ou porque não pode por razões que o ultrapassam, ou porque entende que nenhuma das opções merece o seu voto, qual a vantagem para o sistema de o obrigar a justificar isso para poder votar de novo? Das duas uma, se existir essa possibilidade (a justificação), será mais burocracia e mais uma probabilidade de um eleitor perdido, ou seja, contribui-se para o efeito contrário ao que se pretendia. Se uma medida destas fosse aplicada apareceria logo alguém a defender que o voto branco, ou uma opção do género "nenhuma das outras opções", substituisse a abstenção. Seria a única forma de evitar a necessidade da tal justificação do não voto. Provavelmente a opção do voto em branco passaria da actual insignificância para a maioria em muitas votações o que seria um grande sarilho. A legitimidade de uma votação em que o candidato mais votado tivesse menos votos que os votos em branco seria concerteza bastante comprometida. E todas as tais "análises totalmente ficcionistas e, portanto, demagógicas" de que o Carimbo se queixa (e com razão) sairiam reforçadas.

Publicado por alfacinha em 09:17 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Política , Sociedade

Confusão

Não entendo. O normalmente sucinto e lúcido Liberdade de Expressão deve ter sido tomado de assalto por outro. A propósito do debate sobre cidadania que o Mar Salgado lançou, existem participações valiosas de outros como Bloguitica Nacional, Foi um ar que se lhe deu e Cidadão Livre, pelo menos. Mas o post do Liberdade de Expressão é uma confusão a partir de uma premissa não explicada:

"Alguém no passado teve a ideia brilhante de retirar recursos e poderes aos cidadãos e de os concentrar numa única autoridade central, o estado;"

Será que se está a referir à Revolução Francesa? ou a 1917? Que se saiba, independentemente do que resultou daí, a suposta criação do estado não retirou poder aos cidadãos, retirou-o à aristrocracia que não tinha mandato nenhum de cidadãos. Se a afirmação se refere a qualquer período histórico anterior, então ainda percebo menos. Esta ideia dos cidadãos anteriormente nem era considerada. Seria a democracia Grega? Então e o que aconteceu depois? Não está lá.

Como não entendo o ponto de partida, nem o consigo situar históricamente, o resto do texto parece-me uma fábula. A história da civilização não é redutivel a meia dúzia de considerandos banais sobre o estado como se isso tivesse sido uma invenção de anteontem.

Publicado por alfacinha em 06:57 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Política , Sociedade

Flash Mob II

Não pretendo desinformar ninguém.

Afinal existe outro blog que se reclama organizador da "primeira flash mob em Portugal". Aparentemente não tem nada a ver com o já anteriormente citado... as datas são diferentes e não há referências cruzadas. Só um pequeno pormenor. Se, como é dito, a manifestação não tem conotações politicas por quê escolher a AR? É a "brincar"? Nem o meu gato é inocente nas brincadeiras...

Publicado por alfacinha em 06:12 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

agosto 28, 2003

Flash Mobs em Portugal?

O fenómeno designado por "flash mob" vai-se desenvolvendo, também por cá. Para além da discreta referência no Público, a qual não atraiu muita atenção, existe agora um blog e uma mailing list aberta a inscrições, numa tentativa de organização de um evento em 4 de Outubro próximo.

Este senhor não acredita no sucesso lusitano deste empreendimento, fundamentalmente por razões culturais. A ver vamos, previsões sociológicas são arriscadas, embora a argumentação faça sentido. Diz também, e aqui estou perfeitamente de acordo, que com tantos anúncios, a manifestação não terá nada de flash.

Para além da curiosidade que a evolução do fenómeno me desperta, tenho simultaneamente perante ele uma posição crítica, a qual, receio, pode vir a ser menosprezada, ou criticada, por muita gente. Uma eventual difusão exponencial, nestes dias ainda de estado de graça do mundo novo comunicacional, pode ter efeitos nefastos. Já o tinha referido antes, e penso que o infame blog de que agora se fala (não há link, refiro-me ao post anterior a este), é uma manifestação da tolerância, e por vezes até aceitação, de atitudes de manipulação usando o anonimato e/ou uma capa de sociedade civil apolítica contra o poder. Não é diferente de coisas como o Fórum Social, por exemplo. A sua interpretação pelo público, tendencialmente mais acrítica, porque mascarada pela capa da .tecnologia livre., é que pode sê-lo.

No Brasil, onde já aconteceram flash mobs, e a discussão vai mais adiantada, notam-se aliás os primeiros sinais de politização. Neste blog, organizador de eventos destes, vota-se e discute-se, se se deve evoluir para manifestações com utilidade. Os dados são esclarecedores, neste momento 45,6% dos votantes já concorda com a flash mob "útil". Aliás já aconteceram. Não é difícil antever onde é que isto pode ir parar. Veja-se como "a malta revoltada do costume" já teoriza sobre o tema.

Claro que já existe quem ataque puerilmente, e quem se aproveite da ingenuidade de forma óbvia e criminosa. Mas estes são aspectos completamente secundários, que aliás ajudam a dar força à ideia errada, mas que se vai disseminando, que defende a "pureza" ideológica, por detrás do fenómeno.

Publicado por alfacinha em 06:08 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

agosto 26, 2003

Monarquia

Aceitando o desafio do Mata-Mouros deixo um pensamento sobre o papel do Presidente da República.

Nos últimos anos, após a inexistência política durante o tempo da outra senhora, e um excesso de intervenção na era pós-prec, os PR têm sabido estimular a apetência da população para o reconhecimento da sua figura como o "Pai da Nação". A prová-lo está a re-eleição, sem surpresa, de todos os PR, após os primeiros mandatos. Este aspecto tem sido sempre temperado com algumas pitadas de intervenção, quase sempre também numa toada paternalista. Neste sentido o nosso Presidente, apesar de ser da República, facilmente se poderia transmudar em qualquer monarca contemporâneo. Não o afirmo no sentido de criticar, apenas como observação de um interessante paradoxo. Seria interessante saber a opinião de Paulo Varela Gomes a este respeito...

Publicado por alfacinha em 10:38 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

agosto 25, 2003

Alternativa

Não tenho. Confesso. Pensei, e pensei, mas não encontrei. Isso não quer dizer nada, é apenas reflexo das minhas insuficiências em erudição e pensamento histórico. Mas reconheço o problema. A sociedade humanista poderá ser um beco sem saída. O diagnóstico da aceleração da era da demagogia parece ter correspondência na realidade.

A possibilidade de repor a elite bem pensante no poder, talvez possa ser operada por via de um qualquer terrorismo bem organizado. Mas tenho sérias dúvidas que tal seja viável. Seria qualquer coisa como pensarmos que os iluminados (deste e de outros tempos) teriam feito uma experiência com o povo. A democracia à consignação. Perante o insucesso voltamos à fórmula antiga. O problema é que o povo na sociedade demagógica, pode não votar, nem ler, mas há sempre alguém que traduz Platão para uma linguagem pop.

Contestar o .fim da história. não é repescar o penúltimo capítulo.

Publicado por alfacinha em 12:13 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

agosto 22, 2003

Reacção

Paulo Varela Gomes propõe alternativas ao sistema de sufrágio universal. A leitura deste texto motivou-me um profundo reaccionarismo. O exercício académico de ataque à democracia, quando perpetrado de forma inteligente, como é o caso, atingi-me sempre de forma mais emocional que racional. O meu ser adulto não se revê na tradição jacobina, mas um ser mais inconsciente dentro de mim, revolta-se de cada vez que alguém ataca os fundamentos laicos e republicanos da nossa democracia ocidental.

A primeira alternativa proposta por PVG seria uma delegação de poder nas universidades, no sentido de estas escolherem quem seria eleitor e quem não teria tal direito. Infelizmente não se enunciam critérios para tais juízos, apenas se compara a função ao exercício do poder judicial. Comparação indevida. A sociedade dos 3 poderes confere ao poder judicial a função de administrar a justiça, não a sua definição. Confiar às universidades a definição de critérios de qualificação para se ser, ou não, membro da elite que elegeria quem governa, significaria na prática a entrega de todo o poder na instituição universitária.

Uma versão mais soft, na óptica de PVG, seria um sistema, pouco original, de eleitores especiais, mais uma vez recorrendo a um critério de .mais instruídos que o povo., os quais elegeriam então câmaras, e estas o governo. Tudo para se conseguir o objectivo central, a eliminação da influência dos partidos políticos. PVG é explicito neste ponto: .os alinhamentos são tanto mais imprevisíveis quanto mais gente existir com poder real, e não apenas com poder de voto... Imagine-se a confusão que seria a governação, constantemente disputada por múltiplos interesses corporativos, sem a mediação ideológica que a moldura partidária fornece.

Entre um regresso a uma qualquer oligarquia e o desvario libertário que abomina a democracia representativa, prefiro definitivamente Churchil.

Publicado por alfacinha em 11:36 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

agosto 19, 2003

Carris V

Assim, não vamos lá.

obrigado ao Rui pela pista

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agosto 15, 2003

Positivismo

A propósito da (justa e louvável) emoção de Costa Alves pelo aumento de mortes nesta época, e das primeiras manifestações de alguma perplexidade perante a extensão do "apagão" norte-americano (daqui vai um abraço de boas-vindas ao autor do novo blog), ocorreu-me, como de outras vezes, um pensamento, que não tendo nada de novo ou original, é revelador de como a nossa sociedade vive a ciência.

O positivismo continua a marcar profundamente, se não pelos métodos ou declarações mais explícitas, pelo menos pela via da recusa da nossa não-omnipotência, enquanto seres humanos. O edificio cientifico, que hoje em dia sustenta a sociedade moderna, é em grande medida descendente do espirito positivista, ambicionando a utopia do controle absoluto do homem sobre a natureza. O próprio discurso ecologista, nas suas formas mais radicais, ao pretender o "desenvolvimento sustentado", está imbuído do mesmo espírito de controle absoluto.

O que sentimos, e eu não me excluo, sou também descendente desta linhagem, quando ouvimos falar de tantos mortos em França por via "apenas" de um calor excessivo? O que sentimos quando vemos cidades como NY, e outros potentados de tecnologia, completamente desamparadas? Sentimos perplexidade (ou emoção como Costa Alves), por vermos que, em pleno Séc. XXI, perante situações extremas, de pouco nos vale a ciência médica mais avançada, ou qualquer sistema complexo de distribuição de energia.

Publicado por alfacinha em 02:04 PM , Comentários (1) , TrackBack Secções Sociedade

agosto 14, 2003

Alentejo

Este post vem do coração, não da razão.

É com dor, com tristeza, que de vez em quando me desloco ao Alentejo. Falo do verdadeiro Alentejo, de Aljustrel a Mértola, de Cuba a Ponte de Sôr, não do que agora está na moda, de Milfontes à Zambujeira.

Há sentimentos que não se explicam, sentem-se somente. Não sou alentejano, mas a costela paternal algarvia, deverá ter alguma influência no profundo efeito que aquela região sempre causou em mim. É um local onde a inteligência e a sabedoria dos naturais se aliam a uma cor muito particular da paisagem. Devo ao Alentejo quase tudo o que sei sobre mim próprio.

Sofro com a desistência prolongada a que se vem assistindo. Desistência por parte dos naturais, mas também por parte do Paí­s. A sofreguidão esquizofrénica, a que se assiste todos os verões, já nem sequer abranda em Canal Caveira ou na Mimosa, agora á "sempre a andar", 2 horas e meia de Lisboa ao Algarve. Em cada nova deslocação sinto que mais um bocadinho daquilo se entristeceu, o silêncio, que me seduziu pela inteligência é cada vez mais de ausência.

Mas se hoje falo disto é para vos dizer que, na última viagem, há cerca de 1 mês, senti algo de novo. Não me perguntem porquê, relembro que quem aqui fala é o coração. Senti que, para além de toda a desistência subsidiada, existe concerteza vida. Não sei quando, não sei através de quem (se for pela mão dos Holandeses, que venham), não sei como, mas sei, que haverá um renascimento. Como todos os renascimentos o que resultará não será igual ao que existia antes. Da mesma forma no Alentejo, só o Alentejo me parece possível, e isso descansa-me.

a que propósito este post? a propósito disto

Publicado por alfacinha em 12:00 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Apontamentos , Sociedade

Arte, dizem eles

Multidões Instantâneas, Inexplicáveis e Sem Objectivo

Depois de bem estabelecido o quarto poder (dos media), parece surgir agora um quinto, ainda mais sinistro:

"Estas provam que as pessoas ainda podem fazer coisas acontecer que estão fora do alcance dos poder enorme, corrupto, dos governos e das empresas, que parecem dominar tanto a vida moderna" (o erro está no original). A afirmação é de um blogger, de acordo com o artigo citado.

Durante mais algum tempo iremos assistir a um crescendo das manifestações de "revolta" dos anónimos via novas tecnologias. Esta será a face negativa do estado de graça que os novos meios de difusão beneficiam. Ainda pouco se contesta, não é politicamente correcto fazê-lo, a inocência de iniciativas como estas. Penso que estão na linha dos mails indignados que periodicamente recebemos a apelar a todo o tipo de revoltas, protestos e boicotes. Tudo vale, desde que seja contra o "poder". Esquece-se que a essência desse poder é a democracia. Para se ter credibilidade a melhor garantia é a negação da ligação a qualquer partido, sentidos como fonte de todos os males. A negação da ideologia esconde uma outra ideologia, de cariz totalitário.

O que é novo não são os apelos, manifestos sempre os houve. O que é pernicioso não é o direito à indignação, tal é uma das traves mestras da democracia. O que me preocupa é a permissividade que sinto face ao anonimato, muitas vezes tal é assumido como sinal de "independência". Quando recebo um qualquer apelo ao boicote do que quer que seja, pergunto-me sempre: a quem é que isto aproveita. Invocar, como o faz o blogger, "as pessoas", é pura demagogia.

Mais tarde ou mais cedo, toda a suposta inocência, ou cariz "artistico", por detrás destas manifestações, será desmascarada. Espero que então não se passe para o extremo oposto do erro actual, isto é, que não se confunda o fim com o instrumento utilizado. Já hoje anda por aí muito moralista de pacotilha a querer associar a difusão da internet a um propalado, e nunca demonstrado, aumento da "pedofilia".

as aspas referem-se ao uso generalizado da palavra, errado a maior parte das vezes, mas isso é outra história

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agosto 12, 2003

Super-Escola

Uma medida, fechar escolas com menos de 10 alunos. Logo se erguem vozes reaccionárias, que a medida é economicista, e, claro, não resolve nada, é ao lado do debate dos problemas de fundo da educação..

Economicista, grande crime! Esta atoarda esconde muitas vezes a pobreza argumentativa. Então e se for mesmo em nome de uma coisa simples chamada economia de escala. (ou sinergias, ou massa crítica, ou outro chavão qualquer)? A racionalidade não pode ser, em si mesma, um critério suficiente para se decidir?

A alternativa é, já se sabe, a discussão profunda das causas da desertificação do interior, o debate sobre qual o papel da escola no meio em que está inserida, a criação de dinâmicas no meio educativo que vão muito para além do mero ensinar a ler, escrever e contar. É necessário criar laços, relações, entre as escolas, os pais, as autarquias, de forma a garantir um novo paradigma de desenvolvimento do interior. E por aí fora. A propósito da tal medida simples é este o discurso que se faz ouvir da parte de muito boa gente responsável. Depois, como fica bem este mês, acrescenta-se uma certeza: "Não será com este ensino que no futuro evitaremos os incêndios". Ou seja, o abandono rural será incentivado pela concentração escolar. Terá ocorrido a quem pensa assim que possa ser ao contrário? As escolas perdem significado e valor pelo abandono, porque não há alunos.

Esta ideia da "super-escola" que vai fazer um país novo, tem sido mais responsável pela manutenção do imobilismo, que por avanços efectivos na politica de educação. Não consigo perceber como é possível dinamizar um aparelho tão fragmentado. Uma escola com mais alunos, não será uma escola com maiores possibilidades (mais gente, mais dinheiro) de levar a cabo as tais dinâmicas?

Sempre a resistência, sempre a vontade de olhar para o lado, com o pretexto do debate profundo, para depois nada fazer. E pergunto: porque não concentrar as escolas, no fundo é apenas reconhecer uma realidade, e simultaneamente debater tudo o resto?

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agosto 08, 2003

Urgência

Quando vamos a um velório, a um funeral, a última coisa que nos passa pela cabeça é dizer aos familiares do viúvo que o mais importante é recomeçar. O silêncio, é nessas alturas, a melhor forma de ajuda. Ajuda a quê? Ao luto. Eu sei que está fora de moda, o luto, mas ele é necessário, sem ele, não há verdadeiro recomeço.

Muito se tem escrito sobre os incêndios. De uma forma geral, por aqui, a preocupação vai mais para a reflexão séria e diversificada, que na generalidade da comunicação social, onde o discurso inflamado cumpre uma função mercantil. Esta é uma das razões que me fazem gostar deste meio.

Hoje o Aviz volta a bater na tecla do recomeço. Tem razão, como aliás o Guerra e Pas também tinha. Não tenho é a certeza se tanta insistência não virá antes de tempo. Imagino o que sentirão muitas pessoas, neste momento de dor, quando ouvem falar, nesta altura de ..repensar a politica de florestação... Bem sei que quando a tempestade passar, tudo pode ficar na mesma. Mas esse é um desafio para quem faz a reflexão, porventura acertada. O desafio é voltar a fazê-la, mais tarde, insistir, não desistir. O que adianta vir dizer para o ano, numa evenual repetição do cenário, "eu no ano passado, na altura do drama, disse tudo o que havia a dizer, ninguém ligou..."? Não vejo mal nenhum, antes pelo contrário no surgimento de campanhas de solidariedade. Já o afirmei aqui. Não caridade, apenas solidariedade, pontual pois claro, porque a situação é pontual.

A este propósito, quando o Aviz se lembra do Faial, eu lembro-me da Ribeira Quente, também nos Açores. Há uns anos uma enxurrada levou grande parte da povoação adiante. Anos depois, vi num programa do Prof. Hermano Saraiva o magnifico trabalho de reconstrução entretanto feito. E na minha memória está também o movimento de solidariedade. Pergunto-me qual a quota parte de importância desse movimento, cujos efeitos materiais talvez sejam de menos importância, no próprio recomeço. Tal como o silêncio no funeral pode ser importante para, mais tarde, por vezes muito mais tarde, se encontrar de novo sentido para a vida.

Publicado por alfacinha em 01:11 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

agosto 07, 2003

Mea Culpa II

Recebi um mail de Paulo Pereira do Blogo Social Português, esclarecendo-me que o post que eu comentei aqui não deve ser assacado ao BSP, mas apenas a quem o escreveu.

PP demarca-se do tom do texto, diferenciando no entanto intolerâncias: "o problema é que a intolerância do Portugal Gay não aquece nem arrefece com a vida privada dos padres, enquanto que a intolerância da Igreja afecta directamente todos os Gays que queiram constituir família". Não concordo, respondendo à minha própria pergunta: não vejo onde está a intolerência da Igreja Católica no documento em apreço. Apenas a sinto na resposta do Portugal Gay.

De facto, mais uma vez, cometi um excesso interpretativo ao classificar o texto como "manifesto do BSP". Pelo facto, também as minhas desculpas.

Publicado por alfacinha em 12:30 AM , Comentários (0) , TrackBack Secções Blogs , Sociedade

agosto 05, 2003

Natural Hazards

Vejam bem isto

Façam o mesmo exercicio que eu: recordar os termos em que os grandes fogos na Austrália, Indonésia, EUA, etc, nos costumam ser apresentados. O tí­tulo da noticia diz tudo, para quem tiver fraca memória.

não pretendo desresponsabilizar ninguém, apenas fornecer outra perspectiva... aérea neste caso

Publicado por alfacinha em 06:27 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

Carris IV

Contenta-me que o tema do meu primeiro post tenha sido rastilho de discussão. Prova o meu engano sobre uma eventual falta de interesse no tema, pelo menos neste meio.

O