Secção: Citações

janeiro 15, 2004

Certa

- E o que sentia nesse (trabalho no) escritório?
- Sentia que era tudo muito certo, tudo a horas certas, e eu muito errada...

Germana Tânger, 83 anos, "diseuse" de poesia, em entrevista a CVM, Pessoal & Transmissível

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outubro 10, 2003

Gosto

Tem razão o Filipe do Mar Salgado ao classificar a conversa P&T com António Pinto Ribeiro, como uma pérola. Apesar de só ter ouvido o inicio, ficou-me esta ideia a bailar no pensamento:

"Uma das coisas mais curiosas que acontece entre os públicos Portugueses, curiosas, não necessáriamente positivas, é a falta de diálogo ou de conversa, sobre os espéctaculos, as exposições, ou os filmes que as pessoas vão ver, geralmente ficam-se por 'gostei', 'não gostei', não incorporam aquilo, porque têm medo de falar de si, porque quando nós estamos a falar de uma obra, estamos a falar do nosso gosto, portanto estamos a falar do nosso bilhete de identidade também."

Toda a conversa.

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outubro 09, 2003

Segredo

Abriste uma ferida
Fria. No silêncio
No acaso (ocaso?)
do sorriso que esmaecia...
Na escuridão,
Da morte anunciada
Assim,
Na melancolia...

Esquecido...
Das palavras
Da porta que desconhecia
Disse: sim, sei que sim
E adormeci,
Na esteira da eternidade...

Senti:
O frio da solidão
O fio da lâmina
(lágrima)
Que deixaste a correr,
Nas raízes da minha alma!

Criei
Palavras
Incêndio
Do que nos divide
Ou símbolos
Do que nos agride...

Perdi-me
Nas vielas do destino
o cais do pensamento
Na mágoa!
No inferno do que escrevi
(e agora sepulto na água...)

Luís Araújo, Na Margem do Silêncio, não publicado

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setembro 21, 2003

Momento sete - Mãos


Eram duas mãos
E um monte branco de silêncio
Cansados, cobertos de rugas
E ainda abraçadas
Lembro-me delas à tarde
Sujas de poeira e de vento
Aquelas mãos. Sempre dadas
Ás vezes era Inverno e estava frio
E os dedos, relembro
Sempre curvados, como se abraçassem
A voz, até, do pensamento
E eram dois os que pensavam
Naquelas noites em que o sol ardia
Mas só um o sentimento
Por isso às vezes rezavam
Preces rogadas ao tempo
Velhas memórias a arder
Na alma de quem as sabia
E só com a morte ensinadas
Como lendas que se transmitissem
Só a quem as percebia
A saudade que já sinto
Do cheiro a riso e centeio
Daquelas mãos a tremer
Pelas curvas do meu rosto
Que no meu ombro a descer
Eram traves dos meus sonhos
Mas cobertas de suor
Ainda eram sal e alegria
A quando ao meu tronco se abaraçavam
E eu não sabia o que dizer
Cobriam-se de lágrimas e sangue
Porque viam o sol a escurecer...

Luís Araújo, Na Margem do Silêncio, não publicado

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setembro 11, 2003

Confissão de um não Cavalheiro

Em dias de falta de tempo e inspiração, deixo-vos um texto obviamente dedicado a essa instituição chamada Montanha Mágica:

"Das coisas delicadas e fluídas, convém falar com delicadeza e fluidez; por isso formularei aqui, com precaução, uma observação acessória. Em resumo: a felicidade só se pode encontrar nos pólos extremos das relações humanas - onde as palavras não existem ainda ou onde já não existem - no olhar e nos abraços. Só lá se situam o incondicional, a liberdade, o mistério e o entusiasmo irreprimível. Tudo o que existe no intervalo, como contacto e relações sociais, é tíbio e fraco, determinado, condicionado e limitado pelo formalismo e pela tradição burguesa. A palavra, aí torna-se senhora - a palavra, essa intermediária baça e fria primeiro produto duma civilização domesticada e moderada, e tão totalmente estranha à ardente e muda esfera da natureza que cada vocábulo é, de qualquer maneira, uma frase por si e em si."

Thomas Mann, As Confissões de Félix Krull - Cavalheiro de Indústria, Tradução de Domingos Monteiro, Lisboa: Relógio D'Água, 2003

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setembro 04, 2003

Pensar II

Invejo o pensamento despojado deste António...

Um dia destes tenho que pensar (alto que é para ver se não sai viciado) sobre a amoralidade perdida dos analistas. Para já ainda ando à procura do caminho que outro Professor, também António, nos aconselha:

"É necessário suspender crenças e padrões de valoração para bem pensar, pensar de novo"

António Coimbra de Matos, Mais Amor Menos Doença, Lisboa: Climepsi, 2003

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setembro 02, 2003

Pensar

Na primeira sessão, P vem de óculos escuros e começa por dizer: .Não estou a vê-lo bem.. Põe os óculos para cima e continua: .Não estou mesmo a vê-lo bem, devo ter um problema no olho.. Levanta-se, chega-se ao pé de mim e pergunta: .Você gosta de homens?.. Ao que respondi: .Tu estás a ver se me assustas, mas não me assustas..

Ao longo da sessão, P olhava de vez em quando para debaixo da cadeira e para mim e percebi que estava assustado.

Na segunda sessão começa a falar da necessidade da função continente. Olha para os livros, que estavam atrás de mim na estante, e diz: .Ah, Platão, Kant, eu hei-de ler umas coisas destas..

No dia seguinte traz uns livros de Platão e de Kant que tinha lido e começa a debitar Platão. Eu então disse-lhe: .Pois, a única maneira que tens para transmitir as tuas ideias e os teus pensamentos é através de livros que eu também tenho, como se assim pudéssemos arranjar uma linguagem comum aos dois..

Carlos Amaral Dias, Só Deus em Mim se Opõe a Deus, Lisboa: Fenda, 1993

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agosto 31, 2003

Desassombro

- Em casa (de meus Pais) a hora das refeições era um ritual muito respeitado. Hoje, na minha casa, esteja a Isabel onde estiver, tenho sempre de esperar por ela para comer, não consigo comer sozinho.
- Não?
- Acontece-me, por vezes, quando tenho que comer sozinho, escapar assim uma lágrima. a solidão, sabe, é-me muito difícil de suportar.

Vitorino, entrevistado por Ana Sousa Dias, com um sorriso franco, sem pose, e uma serenidade apenas possíveis para quem sabe conviver com a solidão.

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agosto 25, 2003

Inveja

"É também um pouco a fantasia megalómana por excelência, da pessoa que se alimenta a si própria, da pessoa afectiva, relacional, socialmente não autónoma, mas arrogantemente só. Isto não é a capacidade de estar só, é precisamente o contrário. E é exactamente o contrário porque feita à custa da negação da dependência. (...) Só na capacidade de dependência é que se pode aceitar o amor. Porque se o indivíduo não aceita depender, não pode amar. Porque amar é depender!"

- Do you know who I am?
- That makes no difference; all men are equal in God's eyes.
- Are They?!

"Quando há incapacidade de tolerar a dependência inicial, quando há permanência da inveja primitiva, destrói-se a capacidade de gratidão. Ora, é através da capacidade de gratidão que se descobre a capacidade de amar e que se pode organizar qualquer relação humana. Por exemplo Salieri não se pode sentir grato a Mozart por compor coisas tão bonitas. Ele quer destrui-lo porque não pode suportar a gratidão, a beleza interna que é estar grato, e o impacto estético do objecto de gratidão."
All I ever wanted was to sing to God. He gave me that longing. And then make me mute. Why? Tell me that.
If he didn't want to me to praise Him with music. why implant the desire, like a lust in my body? And then deny me the talent?

"Há outro tipo de problema que é o dos Salieris que controlam a vida social. É por exemplo, a prudência obsessiva, o termos de pensar até cem antes de falar, o termos todo o cuidado com o outro, todo o tipo de discurso que se faz contra as partes de Mozart que existem em cada um de nós e que se viabilizam no primado da confiança. É o que se designa por mediocracia paranóide instalada."
Mediocrities everywhere.
I absolve you. I absolve you all.

"A força destruidora da inveja", in Carlos Amaral Dias e João Sousa Monteiro, Eu já posso imaginar que faço, Lisboa: Assírio & Alvim, 1989

F.Murray Abraham in "Amadeus", Milos Forman, 1984

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agosto 22, 2003

Havia uma luz num destes dias


Havia uma luz num destes dias
Passados mas presentes no silêncio
Das imagens repetidas no cinzento
Que cobre com a morte até os rios
Onde navega sempre o pensamento

Uma luz que só o sol escurecia
A cobrir a noite e o nevoeiro
Uma imagem talvez... aí esculpida
Pelas raízes que eram outras mãos
A derramar palavras pela vida

Luís Araújo - Na Margem do Silêncio (não publicado)

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agosto 10, 2003

Escrevo


A Eugénio de Andrade

Escrevo, para estar mais além da escuridão
E sentir, depois de olhar, um horizonte
Sem linha Sem limite. Escrevo e é o mar
Do teu sorriso, que navega em pensamento
Pelas sílabas dispersas dos poemas Como Aves
Que levemente atravessam o olhar. Escrevo e é o tempo
Da tua voz nas palavras... que derrama o sentimento...

Escrevo, para esquecer o silêncio e o lume
E fechar num abraço a curva azul dos teus ombros
Escrevo, mas é (sempre) a luz dos teus lábios
Que ainda trago comigo... E, nas mãos, a forma dos dedos
Que me escreviam, no rosto, Poemas da água e de trigo

Escrevo, só para escutar o rumor do teu riso
Do parapeito da minha solidão. E não ser tarde (ainda)
Para sentir no meu corpo, os rios da tua mão...

Luís Araújo - Na Margem do Silêncio (não publicado, ainda...)

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agosto 06, 2003

Difícil: Desistir

O encontro sereno da metáfora
O olhar que vê em demasia
Estar só é possível. Depois de partir
Para além do mar. Onde antes vivia...

Morta, a memória do enraizamento
Ali onde houvera. Uma voz a sorrir...
Se recordo o amor que trago. Esqueço
A dor que em mim arde, até me ferir...

Noite. Longa, a tarde que agora finda
E onde vivi. Quando penso escorre nostalgia
Aqueço a alma no que desconheço
Traves da Psique. Ser por quem morria...

Uma mão. Breve, o sentimento. O teu rosto
Na extensão do espaço. Perdido do tempo
Na planície que arde. Na destruição
No inferno maldito do meu pensamento

Luís Araújo - Na Margem do Silêncio (não publicado, ainda...)

para quem só agora aqui chegou aconselho a leitura prévia disto

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agosto 05, 2003

Fácil: Existir

O desencontro profundo das palavras.
Uma vida tecida de melancolia.
Ser não é possível antes de sentir
O sangue do olhar. Exangue, do que lá ardia...

Viva, a recordação de outro modo de ser
Quando pensar era. Já quase existir...
Na memória do que dizias. Saravas
O que em mim arde sem me consumir...

Tarde. Na noite que começa ainda,
No que amei. Quando escrevo morre Poesia.
Oiço o teu rosto nas arestas do silêncio
Nuas, como a mão que tens, ávida e fria...

A casa. O pão. Esta vela acesa. Alumia,
As marés - vivas gastas da memória
Os mesmos dedos. Meus. Também exaustos
De escrever. No mesmo limbo a mesma história...

Luís Araújo - Na Margem do Silêncio (não publicado, ainda...)

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agosto 03, 2003

Do Rui

"LAGOA DA POSSE

Nada se penetra, nem átomos, nem almas. Por isso nada possui nada. Desde a verdade até a um lenço - tudo é impossível. A propriedade não é um roubo: não é nada.


O RIO DA POSSE

Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade. Só nos parecemos ele longe, na proporção, portanto, em que não somos nós. A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns.

Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo. O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro?

Somos forças porque somos vidas. Cada um de nós tende para si próprio com escala pelos outros."


Bernardo Soares - Livro do Desassossego . Os Grandes Trechos

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Dedicatória

Nascemos de um sonho, vivemos no sonho, morremos quando o sonho acaba. E a cura analítica não é mais que a abertura do sonho; acaba quando o paciente sabe sonhar.

António Coimbra de Matos - Mais Amor Menos Doença (Climepsi)

Para a Susana

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agosto 02, 2003

Seriedade

"... em Portugal, cá está um defeito Português, que é confundir-se a seriedade, com a gravata..."

Rui Zink entrevistado por Carlos Vaz Marques - Pessoal e Transmissivel (mais ou menos aos 7 minutos... vale a pena ouvir no contexto)

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agosto 01, 2003

Provocação (a LA)

Tributo a Nina Simone

"I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood

Got life , I got my life"

Do musical "Hair", citado por Ian Anscombe

mais logo talvez se arranje musica para acompanhar...

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julho 29, 2003

Declaração

Para ser coerente:

"...ainda não vi a bomba H
ainda não vi a de neutrões
ainda não vi os meus travões
a ver se paro antes de chegar lá...

...quando eu nascer para a semana, ó mana
hei-de ouvir o teu parecer
hás-de me dizer
se é cada coisa para seu lado
ou se isto anda tudo ligado..."

Sérgio Godinho

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