Não são de facto as melhores condições para apreciar mais uma (a última?) obra do mestre, uma dor de cabeça e um écran de 14 polegadas...
Mas enfim, foi o que se pode arranjar. Talvez por isso me tenha sabido a pouco. Ou talvez não, é capaz de ser mesmo o ocaso. A passagem de testemunho, de Allen para toda uma geração mais nova, domina todo o filme. A modéstia e generosidade não escondem todavia um envelhecer desencantado um pouco como se a paranóia fosse o último refúgio de alguém que ao longo do tempo brilhou pela lucidez. O jovem protagonista (uma espécie de alter-ego de Allen em flashback) perde tudo: a namorada que afinal era uma ilusão, o mestre (Allen himself) enloquecido e desanimado com tudo o que o rodeia, a cidade que ama mas que não lhe dá dinheiro, o psicanalista que nunca o ouviu, o agente, sanguessuga dependente. A sensaçao que fica é a de que WA, simbolicamente desaparecido para lugar incerto fugindo da polícia por conta de um homicidio, já não tem força ou vontade para começar de novo. Oxalá me engane.
Uma semana em cheio. Dois excelentes filmes e uma primorosa coreografia.
Dogville, de Lars Von Trier. Não li críticas, mas provavelmente haverá quem ame ou odeie este filme. De facto, o desconforto inicial causado pelo dispositivo cénico e postura dramática, os quais apostam num despojamento radical, fez desde logo baixas na audiência presente na sala. Aguentei firme. E não me arrependi nada, antes pelo contrário. A galeria de personagens (sublimemente interpretadas) é uma orquestra afinada, conduzida com mestria por Trier. A tragédia em 9 capítulos (e 1 prólogo) revela-nos, sem concessões a rodriguinhos ou desculpas politicamente correctas, a capacidade humana para, simultaneamente, amar e estrangular o outro. Está tudo à vista (literalmente).
Kill Bill, de Quentin Tarantino e Uma Thurman. Claro que é narcisista este filme. Se não fosse, não tinha piada nenhuma. Mas atente-se no imenso respeito que este cineasta e seus comparsas, em particular Uma Thurman, têm pelos géneros que homenageiam. QT podia ter feito apenas mais um filme contado à QT. Mas fez isso, não abdicando do seu próprio estilo, conseguindo integrar, sem mácula nem pastiche, algumas das correntes marginais com maior tradição, nunca os desvirtuando, antes os integrando numa obra coesa e muito, muito saborosa. Felizmente, ainda vai a meio.
A Sagração da Primavera, de Marie Chouinard, pelo Ballet Gulbenkian, com direcção artística de Paulo Ribeiro. Stravinski, ao compor a Sagração, deve ter imaginado esta coreografia. A mecânica dos corpos é audível através das notas. Cite-se a autora: “Não existe história na minha Sagração. Para mim é como se lidasse com o último instante imediatamente anterior ao primeiro momento de vida. O espectáculo é o desdobrar desse momento. Sinto que antes desse momento terá existido uma extraordinária explosão de luz, um clarão de iluminação.”.
O que tem tudo isto de comum? O excesso, a intensidade. A intensidade dramática de Dogville é necessária, sem ela o filme seria apenas um manifesto intelectual vazio. Tarantino consegue a unidade sensorial perfeita entre imagem e som, ambos com o volume no máximo. Os esgares, soluços e repentes dos corpos, em sincronia com a música, correspondem à forma como Marie Chouinard sente a própria vida. E afinal, é isso mesmo que gosto mais de sentir quando me faço espectador. Esta semana fui um privilegiado.
"É também um pouco a fantasia megalómana por excelência, da pessoa que se alimenta a si própria, da pessoa afectiva, relacional, socialmente não autónoma, mas arrogantemente só. Isto não é a capacidade de estar só, é precisamente o contrário. E é exactamente o contrário porque feita à custa da negação da dependência. (...) Só na capacidade de dependência é que se pode aceitar o amor. Porque se o indivíduo não aceita depender, não pode amar. Porque amar é depender!"
![]() | - Do you know who I am? - That makes no difference; all men are equal in God's eyes. - Are They?! |
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| All I ever wanted was to sing to God. He gave me that longing. And then make me mute. Why? Tell me that. If he didn't want to me to praise Him with music. why implant the desire, like a lust in my body? And then deny me the talent? |
| Mediocrities everywhere. I absolve you. I absolve you all. | ![]() |
F.Murray Abraham in "Amadeus", Milos Forman, 1984
![]() | I can no longer sit back and allow... Communist infiltration, Communist indoctrination, Communist subversion, and the international Communist conspiracy to sap and impurify all of our precious bodily fluids. |
| You can't fight in here. This is the war room! | ![]() |
É uma variação aos sorrisos, mas o sentimento é o mesmo. São devidos à Janela Indiscreta, guardiões do espólio do Mestre Hitchcock, o qual profanei com despudor; à Origem do Amor, que partilha comigo a paixão cinéfila bem demonstrada na Sala 5; ao Adufe, cultor de discussão sem insultos. Um abraço muito especial para o Francisco, um Judeu, que apesar de não ter lido (ainda) a Reserche, sabe muito bem do que fala.
Em dia de pouca inspiração, sabores Indianos:
do filme "Monsoon Wedding" de Mira Nair, o tema "Aaj Mera Jee Kardaa" (Today My Heart Desires) de Mychael Danna