O cartão Lisboa Viva é, para mim, um dos melhores símbolos do nosso atraso. E não é só no sentido literal do termo, já que desde que algumas alminhas iluminadas decidiram arrancar com o projecto nas condições em que arrancou, isso apenas veio significar maior confusão e degradação do nível de serviço nos transportes da área metropolitana de Lisboa.
Não havia, e não há, as mínimas condições para avançar com a substituição do velho passe por este novo meio que se pretende universal e tecnológicamente mais evoluído. Falo da minha experiência, que se reporta essencialmente ao uso intensivo do Metro e CP (linha de Cascais), mas concerteza muitos utilizadores (desgraçados "utentes" sem qualquer perspectiva de subirem para o patamar de clientes) de outros meios de transporte da Grande Lisboa me poderão compreender.
Agora que voltei a ser utilizador regular das redes CP/Metro desde há cerca de um mês, resolvi, com antecedência, aventurar-me na na aquisição do super cartão. Aliás, teria mesmo que o fazer, já que o velhinho passe está moribundo. E juro-vos, tentei fazer tudo direitinho. Eu até sou um entusiasta da utilização do transporte público. De nada me valeu...
Depois de ter ouvido tanta queixa sobre a dificuldade em tirar o cartão, e já preparado para uma espera prolongada, acabou por não ser nada dramático esse primeiro passo. Animou-me. O pior foi depois. A informação sobre senhas, carregamentos e activações, é escassa e confusa. Façam a experiência, vão aqui, ou aqui, ou ainda aqui... Perto do final do mês, quando quis comprar a senha, apanhei em cheio com os aumentos (os quais pelo disparate merecem outro post) e lá tive que adiar a aquisição para um dos últimos dias do mês. Enfim, finalmente adquiri a senha, num guichet de uma estação da linha de Cascais, e nessa altura perguntei como é que poderia usar o cartão no novo sistema de acesso do Metro (não que alguém tenha tido o cuidado de me avisar... eu é que sou esperto!). O funcionário lá me disse que ali "não se activava nada", tem de ser no Cais do Sodré. Aí, e após uma espera de bastante tempo, enquanto um homem lutava desesperadamente com uma maquineta complicadissima que faz o tal processo de activação, esta acabou por levar a melhor e o homem, desistindo, lá avisou a longa fila que "isto deixou de funcionar, passem cá noutro dia...". Mais tarde, noutra estação de Metro, lá me activaram o cartão, ou pelo menos disso me convenci.
Assim, no primeiro dia útil do mês, lá estava eu perante aquele espéctaculo desolador que são as filas para a entrada no Metro do Cais do Sodré. Qual não é o meu espanto quando vejo que precisamente naquele dia (o primeiro da obrigatoriedade do Lisboa Viva...), precisamente naquela hora (9 da manhã...), precisamente naquela estação (só uma das mais frequentadas...) as tais almas iluminadas tenham entendido que era a altura certa para "testar" o novo sistema de acesso! Concerteza que eu não percebo nada disto, quem tomou a decisão deve estar na posse de elementos que indicam com clareza ser aquele o ponto ideal, de toda a rede, já que grande parte das outras estações continuavam em sistema de livre acesso. E após uma espera ansiosa, não é que o meu cartão não funcionou!? O fiscal, zangado, reencaminhava toda a gente (muitos como eu) para a bilheteira. Nova fila, novo desespero. De 3 guichets, apenas 2 estavam a funcionar. Quando finalmente cheguei à frente, ainda tive que ver a expressão paternalista de quem me "voltou a activar" o cartão, dizendo-me: "...não senhora, não estava nada activado...". A cereja em cima do bolo foi no fim do dia, na viagem de regresso, ainda com pouca sensibilidade para a temperamentalidade das maquinetas fui vítima de um violento entalão, que só por sorte não se traduziu numa ida ao hospital.
Tudo isto me entristece, não tanto pelas peripécias, mas sobretudo pela não novidade na forma como tudo tem sido conduzido pelos responsáveis (que nem sei quem são...). Este tipo de mudanças apenas poderia ser levada a cabo e conduzida por uma entidade qualquer acima das empresas transportadoras, cada uma a gerir a sua quinta de forma diferente. Os Alfacinhas tinham um sistema antiquado, mas que funcionava. Todos os meses lá se ia comprar a senha (quem queria fazia-o com antecedência), que funcionava de forma uniforme e simples em todos os meios de transporte. Agora, com um cartão tecnológico, continuamos a ter que comprar a senha, e depois fazer o estúpido processo de activação. E ainda estou para ver se não será impossível activar o novo mês com antecedência! Afinal, o processo pressupõe que a senha já esteja colada no cartão...
A única entidade que estava preparada para tirar partido da nova tecnologia, o Metro, afinal é aquela onde as coisas correm pior, já que o novo sistema de acesso, ou melhor, a sua implementação, é das coisas mais escabrosas que já vi. É por demais evidente que o sistema não foi testado antes de ser posto em funcionamento. Por outro lado não estou a ver a CP, que recentemente instalou também novos aparatos para controle de acesso, por sinal bem mais inteligentes que os do Metro, a mudar tudo num prazo curto, o que significa que a aquisição "provisória" da senha é tão provisória como muitas das instalações escolares que funcionam por esse País fora.
A única decisão racional seria adiar o arranque disto tudo, aguardar que as principais empresas (Carris, Metro, CP, RN) estivessem preparadas. Tal decisão só poderia ser tomada se estas coisas fossem geridas de forma integrada. O principal problema dos transportes públicos (para além da mentalidade vigente, mas isso é outra conversa) é a não existência de uma "cultura de interfaces". Não há coordenação nenhuma, não há informação adequada nem consistente, não há esforço para garantir a quem viaja ligações eficientes (por vezes até parece que o esforço é no sentido oposto). O cartão Lisboa Viva, o seu desgraçado arranque, são apenas mais um dos sintomas deste triste estado de coisas.
Não pude deixar de pensar nas queixas do Francisco e na réplica, realista e pragmática, de LR, quando esta manhã me dirigi ao "meu" banco para fazer um depósito. E lá está, preto no branco, às 23:55 do mesmo dia, a confirmação da indisponibilidade do valor depositado, em numerário, há mais de 14 horas...
Já me habituei (e não devia, não deviamos), à forma como os "nossos" bancos nos tratam. Histórias de comissões e confusões tenho muitas para contar, mas uma coisa posso garantir: este "meu" banco é aquele com que mantenho uma relação comercial há mais tempo (pelo menos há 14 anos) e não me lembro de alguma vez ter detectado a aplicação desta "directiva dos anos 80...". Logo, apenas vejo nisto mais um capitulo da novela que tem sido nos últimos anos a conquista desta rentabilidade da "nossa" banca à nossa (sem aspas) custa.
Desde o ínicio do "net-banco" que sou um entusiasta do mesmo. E os bancos bem se esforçaram para me incentivar neste meu pioneirismo. Há uns anos quase todas as operações feitas pela internet (ou telefone) eram gratuitas, ou pelo menos mais baratas, que ao balcão. Compreende-se, é racional que assim seja. Nunca tive ilusões sobre o facto de essa "oferta" ser temporária, mas vejam lá se não é ridículo o meu percurso desta manhã: franqueio a porta do "meu" banco e dirijo-me a uma caixa multibanco (que por acaso está dentro do balcão). Levanto dinheiro de uma conta minha sediada neste "meu" banco. De seguida pego na massa e deposito-a, ao balcão, noutra minha conta, no mesmo banco. O resto da história já conhecem, deixei de poder mexer no dinheiro por um dia... Mas o mais interessante é constatar que esta é única forma que eu tenho de fazer uma transferência (entre contas no mesmo banco!) sem pagar comissão... (e não me falem no MB porque o cartão da conta de onde levantei o dinheiro não tem essa opção, dizem-me que é "por ser de uma empresa..."). Se me dissessem há 5 anos que em 2004 a opção mais económica para o cliente voltaria a ser o uso do balcão eu rir-me-ia...
Mas o mais risível é outra novidade que este "meu" banco introduziu à uns meses. De cada vez que é recebida uma transferência interbancária na tal conta da empresa é cobrada uma comissão (com um obscuro título de "portes"...) de 40 cêntimos!
Não tenho nada contra a rentabilidade, até sou por natureza a favor do mercado livre e da livre contratação de bens e serviços. Mas cada vez tenho menos paciência para estas alterações comunicadas em letrinhas tão miudinhas que nem se vêm.