janeiro 23, 2004

Consciência Colectiva

A questão da votação sobre uma eventual descriminalização do aborto fez acordar de novo a eterna dialéctica entre a liberdade de voto, o chamado “voto de consciência”, do deputado e a obediência ao sentido definido pelo partido que o elegeu. É uma daquelas matérias em que simultaneamente se observa a fragilidade e a força do nosso sistema parlamentar.

Nunca consegui formular uma opinião definitiva sobre quais as circunstâncias em que se justificaria, de pleno direito, a prevalência da liberdade plena do deputado para votar de acordo com aquilo que se convencionou chamar como a “sua consciência”. De cada vez que ouço debater o tema, apesar da minha natural simpatia para com qualquer posição que defenda a liberdade de pensamento de qualquer indivíduo, não consigo deixar de me recordar das minhas idas às urnas. Os boletins de voto não são personalizados, de forma que eu, e penso que a maioria da população eleitora, não vota no deputado pela pessoa individual que ele é, votamos todos em grupos, nos partidos. Essa é a base da nossa democracia, e não cabe aqui a discussão da bondade, ou não, do sistema. A não ser pela lembrança do lugar comum de que, até ver, não se arranjou melhor.

Neste sentido parece-me uma perversão do sistema, que após a eleição, apareça como factor de decisão o pensamento específico de cada deputado. Tal não me parece honesto. Mas mais importante, e para não ser sectário, é saber qual a representatividade das consciências de 230 cidadãos, em relação ao universo da população votante. Os eleitores votam na consciência colectiva, de grupos de pessoas, consubstanciada nos programas partidários e, salvo raras excepções, não conhecem de todo as consciências individuais. Repito que não estou a julgar este sistema como bom, ou menos bom, apenas a recordar as regras do jogo.

Claro que tudo isto faz muita confusão ao meu espírito eminentemente liberal. Não gosto de rebanhos, a não ser de verdadeiras ovelhas. E tentando resolver o meu próprio conflito de consciência, tentarei outra perspectiva. No fundo o problema coloca-se sempre que se admite não existir uma predominância da ideologia colectiva sobre a consciência individual, ou seja, quando se toma como desejável ser um pensamento livre sobre determinada matéria, o melhor dos factores para a decisão do sentido de voto. São as questões supra-partidárias. O regime legal sobre aborto é um bom exemplo disto. Ora para estas questões parece-me muito mais sensato recorrer a todas as consciências, não apenas a uma amostra de 230 “homens bons”. A AR não é um senado. A conclusão a que chego, sobre a questão de principio, já que não me interessa nada discutir os jogos de interesses e poderes, ou eventuais divisões dos blocos, seja à esquerda, seja à direita, é que, nas circunstâncias que poderiam justificar as posições de consciência individual, quase sempre será preferível o recurso ao referendo. O que me agrada muito mais que esta necessidade de imposição de disciplina de voto. A democracia lida muito mal com imposições.

Publicado por Carlos em 11:53 PM , Comentários (1) , TrackBack Secções Sociedade

janeiro 20, 2004

Achismo

O formato mais recente do programa Prós e Contras está de acordo com estes nossos tempos, em que o quarto poder cada vez mais se apresenta como guardião do bem comum. Toda a conversa é condicionada pelo "cutelo" da sondagem prévia e poucos são os convidados que conseguem escapar à ditadura da estatistica. Um dos principais papeis da moderadora é aliás a lembrança, quase constante, aos mais distraídos da "cientificidade" dos estudos. Pior que isto foi a novidade surgida nesta nova versão do programa, a qual consiste na introdução de um "convidado especial" no final do programa que comenta, livremente e sem direito a resposta, o debate. Nas emissões a que assisti foram escolhidos José Manuel Fernandes e Eduardo Dâmaso, respectivamente director e sub-director do Público.

Desde logo me choca a forma escolhida, o "opinion maker" fala no fim, como se fosse detentor da verdade, fazendo opinião e não informação. Depois, se ainda posso aturar JMF (apesar de alguém já lhe ter chamado "picareta falante"...), já o senhor Dâmaso corresponde ao pior modelo dos funcionários que se instalaram na nossa "comunicação social de referência". Nunca consegue descolar de um registo politicamente correcto e mainstream, perfeitamente idêntico a qualquer comentador de café de bairro. Para além disso não sabe falar, começando quase todas as frases por um "Eu acho..." como se toda a gente dependesse do que o senhor Dâmaso acha ou deixa de achar. Pessoalmente estou-me nas tintas para o que ED acha e custa-me ver pessoas que de facto têm trabalhado para o bem comum, pessoas com convicções, sujeitas a este tratamento semana após semana. Condicionadas por todas as sondagens, em permanente sobressalto pela reacção da audiência (palmas e assobios como se fosse um jogo de futebol) e no fim sofrendo o julgamento final por parte de inanidades como este Dâmaso. Arre!

isto é sobre a forma, sobre o conteúdo (de segunda-feira) subscrevo o que diz CAA no Mata-Mouros

Publicado por Carlos em 11:05 PM , Comentários (3) , TrackBack Secções Comunicação

janeiro 15, 2004

Certa

- E o que sentia nesse (trabalho no) escritório?
- Sentia que era tudo muito certo, tudo a horas certas, e eu muito errada...

Germana Tânger, 83 anos, "diseuse" de poesia, em entrevista a CVM, Pessoal & Transmissível

Publicado por Carlos em 10:47 PM , Comentários (3) , TrackBack Secções Citações

janeiro 13, 2004

Sinal?...

A SIC faz uma reportagem sobre o tema do momento, fragilidades na construcção moderna em caso de sismo, e encontra nos arquivos imagens de uma urbanização na fase de construcção para acompanhar o texto. Por acaso (e quero pensar que é mesmo por acaso...) é aquela onde vivo...

Publicado por Carlos em 07:48 AM , Comentários (1) , TrackBack Secções Apontamentos

janeiro 12, 2004

Alfacinha Fedorento

A principal conclusão de um estudo efectuado pela secção de investigação da Casa Pia de Lisboa, a que o Alfacinha teve acesso exclusivo, sustenta ser a existência de escolas secundárias um dos principais locais de captação de menores para as redes de pedofilia e pornografia. De acordo com este trabalho de natureza científica, vai ser feita uma recomendação no sentido de reduzir o número de escolas por forma a evitar a escalada do fenómeno. Este trabalho surge na sequência de outros estudos publicados na imprensa britânica.

Publicado por Carlos em 06:18 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

janeiro 10, 2004

Miserable

Recebi (como provavelmente meio mundo) um mail convidando-me a procurar no Google "miserable failure". O primeiro resultado é a página oficial da Casa Branca com a biografia de George W. Bush. O segundo é a biografia de Jimmy Carter, também da Casa Branca.

Interessante... Dei-me ao trabalho de procurar a razão de ser para este comportamento do motor de busca mais usado no mundo. E, lendo as páginas das biografias, nem sequer aparecem de todo as palavras "miserable" ou "failure", muito menos a expressão. Daí pergunto:

- Será manipulação de quem fez as páginas (Casa Branca)? não faria qualquer sentido...contraproducente mesmo.
- Será manipulação de outrém (por exemplo do 3º classificado: Michael Moore, conhecido activista que não morre de amores por Bush)? se sim, como?
- Será manipulação (ou erro) da Google? não vejo com que objectivo... para além do risco sério de descridibilização.
- Será por acaso? tenho que por a hipótese por honestidade intelectual, mas confesso que não vejo como, apesar de ser tudo menos um especialista em motores de busca.

Uma coisa é certa: a procura no Google é talvez o local mais apetecível, no mundo, para "conduzir rebanhos".

Publicado por Carlos em 02:25 PM , Comentários (4) , TrackBack Secções Comunicação

janeiro 08, 2004

Sinal dos Tempos

Gostei de, no meio do zapping, dar de caras com José Eduardo Moniz, a tentar justificar o injustificável: as "opções editoriais" do "jornalismo" da TVI (isto devia levar ainda mais aspas...). É reconfortante perceber como "eles" começam a perceber que o crime é capaz de deixar de compensar.

Publicado por Carlos em 09:29 PM , Comentários (1) , TrackBack Secções Comunicação

Saudades

... de ouvir!

Publicado por Carlos em 01:23 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Apontamentos