dezembro 31, 2003

Tribunal

Nos últimos dias a SIC divulga, em quase todos os noticiários, o alibí de Herman José, com o requinte de testumunhos telefónicos. Chega a ser ridiculo apresentar os detalhes da acusação a HJ e pormenores do alibí, para logo a seguir nos mostrar Souto Moura, que com assertividade relembra a continuação do segredo de justiça. Segundo esta noticia da TSF, o nosso MP é uma cambada de incompetentes. Enfim... Nada de novo.

O que mais me preocupa é a eventualidade da SIC e TSF terem razão. Se, de facto, toda aquela gente (à excepção, claro, de Carlos Silvino, o grande mauzão...) está inocentíssima, então a nossa justiça estará muito doente e necessitar de grande reforma. Se não, se existe mesmo uma investigação séria (mesmo com eventuais injustiças devido à complexidade do processo), como quero crer apesar de toda esta onda, então espero que se aproveite esta excelente ocasião para fazer o que se impõe desde há muito anos: responsabilização da comunicação social. Os media não estão acima da lei.

Publicado por Carlos em 06:12 PM , Comentários (2) , TrackBack Secções Comunicação

Anti-Patrulha

Em poucas palavras, muita sabedoria. É de esquerda? É de direita? Sim, não e talvez.

Publicado por Carlos em 05:51 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Apontamentos

Anything Else

Não são de facto as melhores condições para apreciar mais uma (a última?) obra do mestre, uma dor de cabeça e um écran de 14 polegadas...
Mas enfim, foi o que se pode arranjar. Talvez por isso me tenha sabido a pouco. Ou talvez não, é capaz de ser mesmo o ocaso. A passagem de testemunho, de Allen para toda uma geração mais nova, domina todo o filme. A modéstia e generosidade não escondem todavia um envelhecer desencantado um pouco como se a paranóia fosse o último refúgio de alguém que ao longo do tempo brilhou pela lucidez. O jovem protagonista (uma espécie de alter-ego de Allen em flashback) perde tudo: a namorada que afinal era uma ilusão, o mestre (Allen himself) enloquecido e desanimado com tudo o que o rodeia, a cidade que ama mas que não lhe dá dinheiro, o psicanalista que nunca o ouviu, o agente, sanguessuga dependente. A sensaçao que fica é a de que WA, simbolicamente desaparecido para lugar incerto fugindo da polícia por conta de um homicidio, já não tem força ou vontade para começar de novo. Oxalá me engane.

Publicado por Carlos em 02:04 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Cinema

dezembro 24, 2003

Mollaig Shona!


Feliz Natal Gaélico do Alfacinha, em terras da Irlanda

Publicado por Carlos em 10:56 PM , Comentários (2) , TrackBack Secções Apontamentos

dezembro 17, 2003

21:35

Entrei. O pequeno café, com um aspecto inofensivo e sossegado visto de fora, afinal fervilhava de actividade no seu interior. Apesar do exiguo espaço, e reduzido número de clientes devido à hora nocturna, disponibilizava ainda o serviço de 3 empregados, um homem e duas mulheres, que andavam numa roda-viva atrás do balcão. Foi sem ouvir a minha própria voz que formulei o pedido, devido ao nível de ruído provocado pelas competição de gritarias à minha volta. Ao olhar para trás, e depois para cima, percebi o que se passava: um jogo de futebol na televisão era o mote para todo o frenesim. De facto, a agitação de cerca de 6 ou 7 clientes e dos empregados era para mim desconcertante. Ao meu lado dois homens conversavam (?), também eles em forte berraria, já que era a única forma de se escutarem. Quando pensava já não ser possível elevar ainda mais o nível de decibeis, eis que surge um novo som, o típico relato radiofónico. Estranhei o estilo, afinal, na TV, a imagem domina e as palavras são redundantes, mas depois percebi o fenómeno. Era outro jogo, transmitido pela rádio. Nesta altura do campeonato já não conseguia ouvir os meus próprios pensamentos, de maneira que me divertia a observar os sinais exteriores da adrenalina nas pessoas que me rodeavam. Pouco tempo depois uma voz grita: "desliga isso, o Benfica marcou!". Isso era o rádio. Agora que havia um golo já era importante ouvir o que diziam os comentadores televisivos. Tarefa inglória, vi os pauzinhos verdes do indicador de volume aparecerem uns após os outros, mas era completamente impossível escutar uma palavra que fosse. Mesmo assim lá se deixou o volume no máximo, sempre ajudava à festa.

No meio de toda a algazarra um homem colocou-se ao meu lado, no balcão, fazendo sinais (já que qualquer som seria irrelevante) aos empregados de queria pagar a despesa. Estes, a um canto, envolvidos numa discussão séria sobre a qualidade de um jogador, não lhe ligaram peva, isto apesar de olharem para ele. Era como se estivessem cegos. Ao fim de algumas tentativas, o homem desistiu e foi-se embora. Posso afirmar, com propriedade, que fui o único a reparar.

Quando saí do café tive a sensação de abandonar um campo de batalha, no auge do confronto. E soube-me muito bem o silêncio da noite.

Publicado por Carlos em 11:29 PM , Comentários (2) , TrackBack Secções Apontamentos

dezembro 16, 2003

Consciência

Num artigo com o qual genéricamente concordo, Helena Matos (via Mata-Mouros), utiliza um argumento que muito ouvi quando do referendo, e que agora volta à baila: "não se referendam questões de consciência". Abordar a despenalização e/ou descriminalização do aborto sob a perspectiva da consciência sempre me pareceu errado. O resultado é eternização do debate, já que a consciência é individual e portanto uma decisão colectiva sobre questões de consciência é sempre coerciva. Mas, mais importante, é a confusão permanente entre os impedimentos legais (criminais ou não) e a possibilidade, que fica sempre a cargo da consciência de cada um, de abortar ou não. Possibilidade não significa aprovação. Não consigo entender como é possível manter a proibição legal e simultaneamente fazer desaparecer as penalizações, para evitar os embaraços que são os julgamentos.

Para além disto tudo, parece-me uma grande falta de respeito pensar em despenalizar o aborto, sem recurso a um novo referendo. Se não tivesse havido o outro (com a concordância de todo o espectro político), seria legítima esta pretensão, mas houve, e, seja qual for a leitura que se faça, ficou bem claro o que a população Portuguesa pensa sobre o assunto.

Estou à vontade para dizer isto. Sempre defendi a completa despenalização do aborto. Não sou um adepto de referendos. Mas, tendo-se feito, como se fez, há que respeitar os seus resultados, ou no mínimo convocar outro.

Publicado por Carlos em 06:37 PM , Comentários (3) , TrackBack Secções Sociedade

dezembro 14, 2003

Prisão II

É sem dúvida uma má notícia.

Publicado por Carlos em 01:25 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Política

Prisão

É sem dúvida uma boa notícia, a prisão de Sadam. Felizmente está vivo, o que diminui consideravelmente a probabilidade de "martirização". Espero que seja possível (embora difícil, no ambiente insano e explosivo daquele País), fazer um julgamento público e esclarecedor. Isso, sim, seria uma vitória da civilização.

Publicado por Carlos em 12:36 PM , Comentários (0) , TrackBack Secções Sociedade

dezembro 13, 2003

Bloco Central

Cada vez ouço mais por aqui e por ali aquela ideia, tão politicamente correcta, que defende o pacto de regime entre os 2 maiores partidos, como a solução universal para todos os problemas endémicos do País. Esta ideia está, quase sempre, associada a outra também muito na moda, a de que a política é uma actividade parisita e prejudicial à sociedade. Estariamos bem no dia em que "eles", sendo este "eles" uma massa comum em que tudo se confunde, fossem corridos e a governação fosse exercida por técnicos qualificados nas diversas áreas. O lamento é quase sempre o mesmo: "mudam os governantes e fazem sempre questão de fazer o contrário dos anteriores". Pois ainda bem, digo eu, estranho seria o contrário. Cada vez tenho menos paciência para todos aqueles que dizem ter os Portugueses menos paciência para a política.

Publicado por Carlos em 01:13 PM , Comentários (3) , TrackBack Secções Política , Sociedade

dezembro 11, 2003

Ratos e Montanhas

O "caso" Lusíada/Martins da Cruz II é paradigmático do baixo nível em que o nosso sistema político vive. Não querendo colocar a hipótese de que a Impresa tenha actuado com motivações políticas, só consigo compreender o triste espectáculo dado pela oposição, a partir da interpretação de Telmo Correia, o qual defende que o caso só agora foi suscitado, e não na altura adequada após a aprovação do decreto-lei, porque apenas agora os deputados se aperceberam dele (se é que existe...). A ser verdade tal interpretação isso significa que a oposição não dedica a atenção devida ao trabalho legislativo do governo.

Para além desta questão, o que mais me angustia, é a necessidade sentida pelos actores políticos de corresponderem, o mais rapidamente que lhes seja possível, a todas as "investigações" da comunicação social. Foi aflitivo ver a competição das oposições na quantidade de indignação, sendo o papel do PS particularmente ridículo já que todo o processo se originou no seu próprio reinado. Da mesma forma angustia-me a aflição e desmultiplicação em explicações urgentes, de ministros e apoiantes, culminando numa audição no parlamente à hora do telejornal, a propósito de uma matéria obviamente muito pouco urgente. E tudo porquê? Pelo medo. A oposição preocupada com a possibilidade de vir a ser acusada de inactividade, o governo com o fantasma da crise ministerial recente.

Este estado de coisas revela uma classe política fragilizada, amedrontada com a "opinião púbica" (essa coisa disforme mas corrosiva). Não conduz, é conduzida. Tudo isto me desagrada.

Publicado por Carlos em 10:06 PM , Comentários (5) , TrackBack Secções Política

dezembro 07, 2003

Maturidade

"Ora, cuidar do défice e da dívida é tratar da responsabilidade e da seriedade. Travar a dívida e eliminar o défice, de modo consistente e com determinação, é zelar pela segurança dos portugueses e pela igualdade social."

As pessoas crescidas falam assim. António Barreto, hoje, no Público. Um verdadeiro mestrado de lucidez.

Publicado por Carlos em 02:42 PM , Comentários (1) , TrackBack Secções Política

dezembro 02, 2003

Con(fusões)

A urgência nacional que permitiu uma ilusão de unidade política à direita, assentava na necessidade de enfrentar a crise. Só mesmo estas circunstâncias extraordinárias tornaram possível a convivência pacifica entre os PP's e todo aquele espaço da social-democracia não populista. Qualquer tentativa séria de prolongar a aliança conjuntural, transformando-a em algo mais que isso mesmo, só poderá resultar num novo periodo de travessia do deserto para toda a direita (centro-direita incluido). É inconcebível para largos sectores do PSD a perspectiva de fusão, ou mesmo de simples aceitação no partido da ala "Portista". Se, como infelizmente parece ser a tendência, Santana Lopes se afirmar cada vez mais como o grande aglomerador da direita popular, a tentação da capitalização pode tornar-se uma realidade. O pior é que essa tentação tem muitos adeptos na heterógenea familia social-democrata (não é por acaso que há quem ainda insista muito no "popular-democrata"...). Um combate entre as duas correntes pode resultar numa cisão, o que seria paradoxal para os que acreditam na fusão. E mais importante, seria desastroso do ponto de vista eleitoral. A esperança (talvez um pouco "Sebastiânica"...) está na capacidade de (re)afirmação de Cavaco Silva.

Publicado por Carlos em 04:51 PM , Comentários (1) , TrackBack Secções Política

Informados e Limpos

Desculpem lá mas agora vou ser politicamente incorrecto.

Parece-me muito bem a pedagogia dos "comportamentos de risco" versus "grupos de risco". Parece-me muito bem o esclarecimento de todos aqueles que ainda partilham o medo do aperto de mão. Mas confesso que cada vez tenho menos paciência para este mito dos nossos tempos sobre as virtudes da educação e informação.

Há muito boa gente convencida que é possível impedir a transmissão de doenças simplesmente através do fornecimento compulsivo de doses maciças de informação. Um pouco como aqueles que acreditam ser o tabaco a única causa de cancro do pulmão. Sinceramente, hoje em dia só não sabe como a SIDA se transmite, quem NÃO quer saber.

Aquilo que todavia mais me irrita é um tom moralista sub-reptício, muitas vezes latente no discurso sisudo dos iluminados. Se algum dia esta gente conseguir domesticar e condicionar a natural rebeldia da adolescência, "falando abertamente de tudo e mais alguma coisa", então sim teremos uma sociedade doente. Informada, não fumadora e limpa, mas doente. Já faltou mais.

Publicado por Carlos em 04:19 PM , Comentários (1) , TrackBack Secções Sociedade