Não ouvi, ainda, explicações do nosso Governo para se ter prestado à humilhação que é o apoio ao eixo Paris-Berlim. Nem consigo aliás perceber toda esta treta do "realismo". Como é possível ganhar alguma força negocial, cedendo na pior altura? A mensagem que os ministros da UE transmitiram é clara: o cumprimento do pacto só é para levar à letra quando não estiver em causa nenhum dos poderosos. Que raio de pacto é este? Hoje, sinto-me particularmente indignado e muito, mas mesmo muito, decepcionado com esta Europa e em particular com o meu Governo.
A Aldeia da Luz representa um bom exemplo da atitude de recusa do luto, e respectivas consequências. Há algumas dezenas de anos, seria impensável a reconstrução mimética de toda uma povoação, perante o avanço do “progresso”. E se é evidente que o choque psicológico infligido aos desalojados (de forma irreversível), na hipótese de não se construir nenhuma “nova aldeia”, seria, num primeiro momento, com certeza superior, já não é tão evidente a vantagem a médio e longo prazo.
Para além do projecto, para além dos holofotes, que agora se começam a apagar, os habitantes são agora confrontados com uma realidade física, que quanto mais parecida se faz à memória afectiva, mais torna esta última presente, e portanto mais lhe faz sentir a falta. É como se a uma mãe, lhe fosse tirado um filho, e depois se lhe entregasse uma “réplica”. Quanto mais perfeita, do ponto de vista da semelhança, maior a dificuldade em superar a dor pela perda.
Claro que o que aparece são todas as queixas pelo não funcionamento disto o daquilo. E pode-se tentar prosseguir a ilusão. A questão, vista de uma forma superficial, será o cumprimento de todas as promessas feitas à comunidade, na tentativa de conseguir ao mesmo tempo, a réplica da “velha aldeia”, mas com todos os confortos inerentes a qualquer obra nova. Nesta equação, tão positivista, falham os factores mais importantes: a vida, a morte e a memória afectiva. A essência da vida, que os habitantes não sentem no novo largo, tão vazio, tão despido. E talvez a não presença dos habitantes no largo seja a sua forma de tentar reencontrar aquilo que lhes tem sido negado: a possibilidade do luto. Só quando o novo largo se não parecer com o velho, poderá aquele substituir este. Até lá, apenas jornalistas e turistas o visitarão.
Gostei de ouvir Vera Jardim a fazer, finalmente, o que a direcção do PS deveria ter feito desde a primeira hora. Tentar "afastar" (a expressão é dele) Ferro Rodrigues do escândalo. Frisando o desconhecimento sobre a autoria das calúnias, e repetindo a impossibilidade de se agir contra "realidades virtuais". Assim sim, sem recurso a teses de cabalas tenta-se colocar a questão como ela deve sempre deveria ter sido colocada, ou seja, processa-se aquele que é de facto o único culpado visivel de um crime, assumindo como espero se venha a comprovar, a inocência de FR. Neste caso foi o Correio da Manhã, um dia pode ser a SIC ou a TVI. Fico muito satisfeito por este re-apontar das armas. Acabe-se de vez com esta impunidade tácita dos tablóides, politicamente correcta, mas muito nociva para a saúde da democracia.
Não Gostei mesmo nada (como habitualmente...) de ouvir Luis Filipe Menezes, a enrolar justificações subservientes ao comportamento caciquista do chefe Pinto da Costa. Triste figura que tantos politicos, como ele, fazem. Se no imediato lhes traz proveitos pessoais, a prazo, apenas contribui para a degradação da imagem pública da classe e, por consequência, do País.
Viva o Túnel das Amoreiras! Parece que vai ser uma boa ajuda à utilização de Transportes Públicos. Até já fizeram cartazes...
Ao ouvir Joaquim Vieira, num debate (Directo ao Assunto, TSF) sobre Deontologia e Jornalismo, tentar justificar o injustificável, evocando conceitos como “Liberdade de Expressão” e afins, para “contextualizar” o desgraçado panorama de selva e recuo civilizacional que se vive na comunicação social, ocorreu-me um pensamento. Por todo o lado, a propósito de violações grosseiras de regras de conduta, de atentados ao bom-nome, quase sempre ligados a estratégias comerciais, se tem evocado esta “perspectiva liberal”, se tem justificado com o palavrão da liberdade toda a infâmia.
Há aqui uma confusão terrível. A questão da liberdade de expressão, ou falta dela, coloca-se sempre que um determinado poder, normalmente politico, impede ou reprime a expressão, a divulgação de determinado conteúdo, fazendo uso de instrumentos de censura, policiais ou outros. Tudo isto é característico da sociedade não democrática, do poder não eleito, do sistema não controlado pela população. Por outro lado o controle sobre o cumprimento da legislação, inerente ao exercício do poder democrático, nunca pode ser confundido com censura. É aliás um dos garantes da própria natureza democrática da sociedade. Confundir a intervenção do poder, neste sentido que visa precisamente garantir a preservação da liberdade, com uma qualquer censura, evocar constantemente o direito à liberdade de expressão, é um insulto a todas as verdadeiras vítimas de actos de repressão ou censura.
Uma semana em cheio. Dois excelentes filmes e uma primorosa coreografia.
Dogville, de Lars Von Trier. Não li críticas, mas provavelmente haverá quem ame ou odeie este filme. De facto, o desconforto inicial causado pelo dispositivo cénico e postura dramática, os quais apostam num despojamento radical, fez desde logo baixas na audiência presente na sala. Aguentei firme. E não me arrependi nada, antes pelo contrário. A galeria de personagens (sublimemente interpretadas) é uma orquestra afinada, conduzida com mestria por Trier. A tragédia em 9 capítulos (e 1 prólogo) revela-nos, sem concessões a rodriguinhos ou desculpas politicamente correctas, a capacidade humana para, simultaneamente, amar e estrangular o outro. Está tudo à vista (literalmente).
Kill Bill, de Quentin Tarantino e Uma Thurman. Claro que é narcisista este filme. Se não fosse, não tinha piada nenhuma. Mas atente-se no imenso respeito que este cineasta e seus comparsas, em particular Uma Thurman, têm pelos géneros que homenageiam. QT podia ter feito apenas mais um filme contado à QT. Mas fez isso, não abdicando do seu próprio estilo, conseguindo integrar, sem mácula nem pastiche, algumas das correntes marginais com maior tradição, nunca os desvirtuando, antes os integrando numa obra coesa e muito, muito saborosa. Felizmente, ainda vai a meio.
A Sagração da Primavera, de Marie Chouinard, pelo Ballet Gulbenkian, com direcção artística de Paulo Ribeiro. Stravinski, ao compor a Sagração, deve ter imaginado esta coreografia. A mecânica dos corpos é audível através das notas. Cite-se a autora: “Não existe história na minha Sagração. Para mim é como se lidasse com o último instante imediatamente anterior ao primeiro momento de vida. O espectáculo é o desdobrar desse momento. Sinto que antes desse momento terá existido uma extraordinária explosão de luz, um clarão de iluminação.”.
O que tem tudo isto de comum? O excesso, a intensidade. A intensidade dramática de Dogville é necessária, sem ela o filme seria apenas um manifesto intelectual vazio. Tarantino consegue a unidade sensorial perfeita entre imagem e som, ambos com o volume no máximo. Os esgares, soluços e repentes dos corpos, em sincronia com a música, correspondem à forma como Marie Chouinard sente a própria vida. E afinal, é isso mesmo que gosto mais de sentir quando me faço espectador. Esta semana fui um privilegiado.