É pois. Nos dias seguintes ao 11/9 perguntei o mesmo por aqui e por ali. Durante anos os milhares de vítimas na Argélia, para citar uma realidade mais próxima que a África negra, me impressionaram. Durante anos não mereceram mais que notícias de rodapé e reportagens que, por serem tão lúcidas, não eram mediáticas. A única resposta que me ocorre é que o relativismo mais que uma questão de principio é sintoma de etnocentrismo. Najaf não tem a ver connosco, é lá com eles.
Não sei como foi possível até hoje não ter reparado no Retórica e Persuasão. Quando for grande quero escrever assim. Verdadeiro serviço público.
A atenta Susana chama-me a atenção para uma troca imperdoável que fiz de Alentejanos (logo eles!). Era o Janita pá! Qual Vitorino... Obrigado a ela e desculpas a eles.
É verdade, volto à carga, pela última vez e por bons motivos. Depois do post "Dificuldades" do Terras do Nunca, percebi que contribuí para alguns equívocos desnecessários. Parece que no registo privado fui muito mais bem sucedido. Sendo assim, peço desculpa por vos maçar de novo com este assunto, mas como o visado do seguinte mail exprimiu a sua pena pelo mesmo não ser um post, já que concorda e gostaria de o subscrever, achei que lhe devia o gesto de transformar o mail em post:
Caro JMF,
A minha ideia era exactamente demonstrar como os epitetos "esquerda, direita, conservador, liberal,..." são, por vezes, um problema maior que as ideias por detrás deles. Não faço parte daqueles que dizem que isso (esquerda/direita) já não se usa. E arrisco com algum atrevimento, que me é dado pela leitura do que tem escrito no blog, que o meu caro amigo também não se revê nessa formulação. Concordo plenamente quando diz que não vale a pena continuar a discussão. É de facto estéril.
Não me conhece, também não o conheço a si, não conhecemos muitos dos bloguistas com os quais debatemos. É fácil, e muitos fazem-no, classificar tudo como esquerda ou direita, sem atender a todas as outras dimensões. O estudo americano, provavelmente sem intenção dos autores, veio "dar gás" à redução que fez no seu título, evocando a dimensão patológica. E eles, percebendo o abuso, desmentem-no, com todas as letras.
Não é de agora, sempre me fez confusão o lançamento de termos da psico-patologia para a praça pública sem qualquer contextualização. Veja-se o caso triste do termo pedofilia. Um desgraçado que sofra mesmo de pedofilia (perversão que não significa de modo nenhum o acto do abuso sexual) viu acrescentar-se nestes anos mais uma dimensão de sofrimento à que já tinha, por via da doença: a marginalização, a exclusão social. Exagero, eu sei, não estou a dizer que é comparável, é apenas uma sensibilidade que adquiri. Não sendo profissional da área, tenho alguma formação e, acima de tudo, gosto pelo estudo do comportamento humano.
Quanto à questão da rigidez de carácter, ou de convivio com a ambiguidade (apesar de tudo prefiro a palavra incerteza), ou com a morte, mais uma vez me atrevo a pôr-me ao seu lado. Não sei se isso passa no Alfacinha, mas esforço-me por não usar muito a ironia, o sarcasmo, e sobretudo falar mais das incertezas que das certezas (que tenho muito poucas). Constantemente me debato entre uma esquerda de formação e uma direita de sedução, para voltar às simplificações. Há dias em que acordo conservador e me deito liberal. E isto não é jogo de palavras, é sincero, corresponde a um estado (que julgo adulto) de recusa dos tais confortos ideológicos de que falava o outro. Mais uma vez, é abuso pensar que não sente como eu? (sentir, não pensar)
Desculpe se fui maçador, muitas vezes me acusam de ser um chato com esta mania de re-pisar o mesmo assunto vezes sem conta. O que não quero é perder interlocutores como o meu amigo, há poucos na blogosfera infelizmente, com quem se pode falar sem vir logo a pergunta: "de que lado é que tu estás?". Daí a insistência. Daí o R. Wyatt. E muito mais coisas que podemos partilhar concerteza.
Um abraço do,
Alfacinha
- Em casa (de meus Pais) a hora das refeições era um ritual muito respeitado. Hoje, na minha casa, esteja a Isabel onde estiver, tenho sempre de esperar por ela para comer, não consigo comer sozinho.
- Não?
- Acontece-me, por vezes, quando tenho que comer sozinho, escapar assim uma lágrima. a solidão, sabe, é-me muito difícil de suportar.
Vitorino, entrevistado por Ana Sousa Dias, com um sorriso franco, sem pose, e uma serenidade apenas possíveis para quem sabe conviver com a solidão.
Maria de Belém, Lurdes Pintassilgo e Murteira Nabo Têm Aqui Casas de Férias é o título. E, volto a dizer, os títulos são importantes. Este corresponde ao lado mais negro do (erradamente) chamado Jornalismo de Investigação.
No artigo referido, aproveitando o pretexto de uma reportagem sobre a Praia Grande, faz-se manipulação, que, se não tem objectivos políticos, então é de um descuido fenomenal. Senão vejamos.
Começa-se por apresentar nos dois primeiros parágrafos uma série de nomes directamente ligados ao poder socialista da era Guterres (5 ex-ministros, Murteira Nabo e M. L. Pintassilgo, que não anda longe) como tendo construído casa na zona. Quem leia, fica com ideia que, na época, apenas quem estivesse ligado ao governo poderia construir, já que não existindo PDM, o plano do parque Sintra-Cascais proibia.
Depois, no parágrafo seguinte, como quem não quer a coisa(?), ou seja, a propósito de um restaurante, deixa-se escapar que a autarquia era socialista. O leitor que some 2 + 2, que o "jornalista" não se quer meter nisso.
Falta de rigor, concerteza que os governantes socialistas não serão as únicas figuras públicas a ter construido casa naquele local... Insinuação, não se formula nenhuma acusação nem se referem factos comprovados, apenas uma suspeita vaga, mas grave, quando aplicada a politicos de topo. Tudo muito bem embrulhadinho a apelar à conversa de café: "cá está, isto é uma vergonha, são todos iguais...".
Não sei se houve violação de leis, não sei se houve corrupção, que a existir da forma que é insinuada, seria de uma estupidez atroz, significaria talvez o fim de carreiras politicas de gente importante, e uma crise descomunal no PS. O que sei é que, com este estilo de jornalismo, não vamos a lado nenhum na procura da verdade.
| They say the working class is dead, we're all consumers now They say that we have moved ahead - we're all just people now There's people doing 'frightfully well' there's others on the shelf But never mind the second kind this is the age of self They say we need new images to help our movement grow They say that life is broader based as if we didn't know While Martin J. and Robert M. play with printer's ink The workers 'round the world still die for Rio Tinto Zine And it seems to me if we forget Our roots and where we stand The movement will disintegrate Like castles built on sand | ![]() ![]() |
| Robert Wyatt - Old Rottenhat | dedicado a jmf |
|---|
A minúscula no título não é engano, os títulos são importantes, é muitas vezes aquilo que fica, daí deverem ser pensados. Neste caso a minúscula representa o tom, sereno, que se pretende realçar deste post, para que ninguém diga que anda por aqui gente exaltada.
1. jmf (de novo as minúsculas são importantes.) diz não entender esta indignação. Que não percebe a diferença do blog face a outras notícias. Eu ajudo, citando alguém que ele compreende:
.E a quantidade de... ingénuos que cairam nesta?.
Mais uma vez não há engano, apenas não consigo fazer um link direccionado ao post, mas a citação é de há 5 dias num post chamado "Blogues aos molhos (com molho...)". O que interessa é o ponto 1, e está bem visto, sim senhor.
2. Responder de forma assertiva à ironia fácil e ao sarcasmo que nem sequer respeita as fontes, pode confundir-se com exaltação. Lamento. Acredito que, agora que jmf me conseguiu catalogar, através da compreensão profunda das minhas motivações, lhe seja muito mais fácil lidar com (ou ignorar) as minha insuficiências cognitivas. A dúvida que me fica é sobre a orientação politica do próprio jmf. Habituado que estava a vê-lo na bancada da esquerda, será que terei que reavaliar o seu posicionamento? Esta súbita necessidade de encaixar todos os que não concordam com ele num arquétipo equalizador e reconfortante, não será sintoma da horrenda .patologia direitista.?
Não partilho do optimismo de CAA do Mata-Mouros. Tem razão quando diz "Ainda bem que, desta vez, todos falam disto!", mas a maior parte deste "todos" não está minimamente preocupada com a discussão séria do tema. Para além dos interessados (arguidos, respectivos advogados, vítimas, Casa Pia), os quais estão obviamente interessados em fomentar o debate no sentido de aproveitar a onda mediática a seu favor, sinto que, com grande ajuda do mau jornalismo, a discussão se situa nos antípodas dos nobres objectivos afirmados por CAA nas suas intervenções. Do que "toda a gente fala", a pretexto so segredo de justiça, a pretexto da prisão preventiva, é da culpabilidade ou inocência das figuras envolvidas, da bondade de intenções ou não do Juiz, não do sistema.
Apesar de ter visto apenas o segundo debate na SIC, gostei, como não profissional da justiça que sou, do que vi. Posso entender que um profissional da área, como CAA, sinta que é pouco, que é redundante, mas é seguramente de excepção, discutir-se frontalmente aquilo que é suscitado por este caso, sem cair no erro que é falar apenas do caso. Quantas vezes na comunicação social (que deveria fazer mais vezes jus ao seu papel "social") se dá tempo de antena a um Juiz para a explicação serena da distinção importante que deve ser feita entre os "magistrados", o "ministério público", os "juízes"? Não é questão de somenos, a maior parte da população, embalada pela cantiga do costume do "eles são todos iguais", não faz esta destrinça. Só vê, de um lado, a polícia e os tribunais (metendo-se aqui dentro tudo, juízes, magistrados, etc), e do outro os arguidos e seus advogados. Como se fosse um filme de cow-boys.
Espero que CAA tenha razão, contributos como o dele, que vem dedicando posts exemplares sobre o tema, recusando a discussão da culpabilidade das pessoas concretas e todas as cabalas, são importantes. Pode ser que se venha a rever. Apenas me pareceu importante fazer esta apontamento, e espero por mais debates como o que vi ontem.
A mesma sociedade que elegeu a adolescência como a geração de ouro, elegeu o luto como o tabu supremo. Pela minha parte lamento que social e individualmente se ande a fingir que o luto é uma coisa ultrapassada. A fingir sim, porque ainda não se conhece cura para a morte, e tudo, mesmo tudo, o que existe, pessoal ou materialmente, tem um fim. Nada se pode construir de novo sem luto. O luto desempenha uma função fundamental na possibilidade de voltar à vida. Se não se faz o luto, o que nos abandona fisicamente nunca nos deixa a alma. E uma alma cheia, superlotada, não é mais viva que outra que se renova. Está, paradoxalmente, mais perto da morte.
Antecipando-me à prometida resposta do Cristovão-de-Moura, ao post do Carimbo, gostava de, mais uma vez, ser destrutivo, isto porque continuo sem alternativa.
Não vejo qualquer vantagem em impedir o acesso ao voto a eleitores abstencionistas (por exemplo que não votem 2 vezes seguidas). Para quem não vota porque não quer votar nunca, o efeito é nulo. Ou seja, a sanção não tem qualquer efeito punitivo. Por outro lado, se um determinado eleitor não vota em dois actos eleitorais seguidos, ou porque não pode por razões que o ultrapassam, ou porque entende que nenhuma das opções merece o seu voto, qual a vantagem para o sistema de o obrigar a justificar isso para poder votar de novo? Das duas uma, se existir essa possibilidade (a justificação), será mais burocracia e mais uma probabilidade de um eleitor perdido, ou seja, contribui-se para o efeito contrário ao que se pretendia. Se uma medida destas fosse aplicada apareceria logo alguém a defender que o voto branco, ou uma opção do género "nenhuma das outras opções", substituisse a abstenção. Seria a única forma de evitar a necessidade da tal justificação do não voto. Provavelmente a opção do voto em branco passaria da actual insignificância para a maioria em muitas votações o que seria um grande sarilho. A legitimidade de uma votação em que o candidato mais votado tivesse menos votos que os votos em branco seria concerteza bastante comprometida. E todas as tais "análises totalmente ficcionistas e, portanto, demagógicas" de que o Carimbo se queixa (e com razão) sairiam reforçadas.
Não entendo. O normalmente sucinto e lúcido Liberdade de Expressão deve ter sido tomado de assalto por outro. A propósito do debate sobre cidadania que o Mar Salgado lançou, existem participações valiosas de outros como Bloguitica Nacional, Foi um ar que se lhe deu e Cidadão Livre, pelo menos. Mas o post do Liberdade de Expressão é uma confusão a partir de uma premissa não explicada:
"Alguém no passado teve a ideia brilhante de retirar recursos e poderes aos cidadãos e de os concentrar numa única autoridade central, o estado;"
Será que se está a referir à Revolução Francesa? ou a 1917? Que se saiba, independentemente do que resultou daí, a suposta criação do estado não retirou poder aos cidadãos, retirou-o à aristrocracia que não tinha mandato nenhum de cidadãos. Se a afirmação se refere a qualquer período histórico anterior, então ainda percebo menos. Esta ideia dos cidadãos anteriormente nem era considerada. Seria a democracia Grega? Então e o que aconteceu depois? Não está lá.
Como não entendo o ponto de partida, nem o consigo situar históricamente, o resto do texto parece-me uma fábula. A história da civilização não é redutivel a meia dúzia de considerandos banais sobre o estado como se isso tivesse sido uma invenção de anteontem.
Não pretendo desinformar ninguém.
Afinal existe outro blog que se reclama organizador da "primeira flash mob em Portugal". Aparentemente não tem nada a ver com o já anteriormente citado... as datas são diferentes e não há referências cruzadas. Só um pequeno pormenor. Se, como é dito, a manifestação não tem conotações politicas por quê escolher a AR? É a "brincar"? Nem o meu gato é inocente nas brincadeiras...
O Terras do Nunca entusiasmou-se com um artigo do Washington Post e cita-o (não é bem uma citação, mas vá lá...), como se fosse alguma novidade:
"O sentimento de instabilidade na sociedade, o medo da morte, a intolerância face à ambiguidade, a necessidade de reclusâo, uma baixa complexidade cognitiva e um sentimento de ameaça são os factores que levam as pessoas a optarem politicamente pela direita.".
para depois concluir sarcasticamente:
"É claro, se não quiserem entrar no debate sobre Joni Mitchell, poderemos sempre discutir porque é que tantos blogues apresentam uma «baixa complexidade cognitiva». Ou porque é que outros revelam uma tão grande «intolerância face à ambiguidade». E porque haverá outros que não têm medo da morte.".
Nada disto é novidade, nem vale a pena colocar links (seriam tantos), esta questão já foi suficientemente discutida nos blogs portugas (e outros), e não há muito tempo.
Mais importante é a falta de rigor, o artigo do WP surgiu precisamente para desmistificar aproveitamentos destes. Leia-se bem o artigo, para além do primeiro parágrafo, e tirem-se quaisquer dúvidas.
E mais importante ainda, é a deturpação, habitual, de dados que se pretendem científicos, apresentados fora do contexto, a não profissionais. É antiga prática (jornalistica), e já devia ter desaparecido, usar estudos sobre o comportamento (sobretudo os fundamentados estatisticamente), que muitas vezes empregam palavras que no senso comum querem dizer uma coisa e no contexto cientifico outra (por exemplo neurose), para justificar esta ou aquela teoria. O que se afirma empiricamente, ganha assim outra "validade", e isso tem um nome: manipulação. Este senhor sabe do que falo.
"Thus our research is best understood as addressing the cognitive and motivational bases of conservatism (and liberalism) rather than the personalities of conservatives (and liberals)." (do artigo)
Isto foi o que o Terras do Nunca fez ao debruçar-se, jocosamente, sobre a "suposta" personalidade de alguns autores de blogs. Ou o título do post, "Direita/esquerda, uma patologia", que é exactamente o desmentido principal contido no artigo. E para o perceber nem era necessário ler mais que o título...
E depois há sempre a confusão (implicita neste caso) do costume, que é misturar orientações politicas (direita, esquerda, conservadorismo, liberalismo) com o grau de rigidez mental (para usar uma expressão simples). Já lá vai o tempo em que se podia simplesmente falar da direita e da esquerda nesses moldes. Não são as convicções politicas em si mesmas, é a forma como são apreendidas e utilizadas por cada um, o aspecto relevante. Há muitos conservadores (no sentido de maior rigidez) na (extrema) esquerda, e muito liberais na direita (não extrema). E os libertários, onde estão?
Quem é que, afinal, vê o mundo a preto e branco?
E o que é que a Joni Mitchell tem a ver com isto? As preferências musicais são indicativas? Eu gosto muito de Rickie Lee Jones, de Annete Peacock, de Suzanne Vega (e muito mais, mas não quero ser maçador). Será que isto me classifica politicamente?
O fenómeno designado por "flash mob" vai-se desenvolvendo, também por cá. Para além da discreta referência no Público, a qual não atraiu muita atenção, existe agora um blog e uma mailing list aberta a inscrições, numa tentativa de organização de um evento em 4 de Outubro próximo.
Este senhor não acredita no sucesso lusitano deste empreendimento, fundamentalmente por razões culturais. A ver vamos, previsões sociológicas são arriscadas, embora a argumentação faça sentido. Diz também, e aqui estou perfeitamente de acordo, que com tantos anúncios, a manifestação não terá nada de flash.
Para além da curiosidade que a evolução do fenómeno me desperta, tenho simultaneamente perante ele uma posição crítica, a qual, receio, pode vir a ser menosprezada, ou criticada, por muita gente. Uma eventual difusão exponencial, nestes dias ainda de estado de graça do mundo novo comunicacional, pode ter efeitos nefastos. Já o tinha referido antes, e penso que o infame blog de que agora se fala (não há link, refiro-me ao post anterior a este), é uma manifestação da tolerância, e por vezes até aceitação, de atitudes de manipulação usando o anonimato e/ou uma capa de sociedade civil apolítica contra o poder. Não é diferente de coisas como o Fórum Social, por exemplo. A sua interpretação pelo público, tendencialmente mais acrítica, porque mascarada pela capa da .tecnologia livre., é que pode sê-lo.
No Brasil, onde já aconteceram flash mobs, e a discussão vai mais adiantada, notam-se aliás os primeiros sinais de politização. Neste blog, organizador de eventos destes, vota-se e discute-se, se se deve evoluir para manifestações com utilidade. Os dados são esclarecedores, neste momento 45,6% dos votantes já concorda com a flash mob "útil". Aliás já aconteceram. Não é difícil antever onde é que isto pode ir parar. Veja-se como "a malta revoltada do costume" já teoriza sobre o tema.
Claro que já existe quem ataque puerilmente, e quem se aproveite da ingenuidade de forma óbvia e criminosa. Mas estes são aspectos completamente secundários, que aliás ajudam a dar força à ideia errada, mas que se vai disseminando, que defende a "pureza" ideológica, por detrás do fenómeno.
Hesitei nos últimos dias sobre qual a atitude a tomar perante o desgraçado, e criminoso, blog criado para lançar a confusão e calúnia sobre o processo Casa Pia, valendo-se para tal do anonimato. Percebi hoje, ao ler os posts de Jornalismo e Comunicação e Pacheco Pereira, que a minha hesitação mais não foi que cobardia. Se estes posts não tivessem surgido provavelemente não estaria agora a fazer este. Lamento. E bem haja, para eles.
Uma das desculpas para a hesitação foi a necessidade de reflexão motivada pelo reconhecimento nesta coisa abjecta, da pior das perversidades que este meio (novas formas de comunicação a partir das novas tecnologias) pode encerrar. O anonimato é legitimo, mas não deve ser descurado o perigo de, por via do estado de graça de que todo este fenómeno beneficia, se ultrapassem fronteiras não admitidas em outras instâncias como se nada fosse, levando muita gente bem intencionada a colaborar involutáriamente em manobras que são tudo menos inocentes. Já tinha falado disto, noutro contexto, e brevemente voltarei à carga.
Começa-se pela inocência, toda a gente acha graça, depois é a sério.
Como é evidente não há link. Infelizmente não tem sido a regra seguida por aqui.
Noutros tempos existiu uma banda, nas margens de um movimento já de si marginal. Chamava-se The Wake. Hoje, tempo de esboroamento de fronteiras (Bent, Goldfrapp, ...), há quem respire devagarinho (de novo) por entre as estrelas...
| Double View
no you can.t change my mind Alpha - Stargazing | ![]() ![]() |
Assim mesmo. Um ilustre visitante que "Gloogava" (sim, tenho indormação segura que este verbo existe) isto, achou que por aqui ia lá. Não deve voltar...
Este post era para ser (mais um) sobre o tema do momento, o abandono de algumas figuras gradas da blogosfera. Depois pensei melhor, decidi manter o título, e em vez dos que se vão, interessa(me) falar de quem chega. Ora aqui está um caso de amor à primeira leitura. Bem vindo!
Sobre os que se vão, recordo os tão elogiados artigos do Abrupto e Aviz sobre a vitalidade da blogosfera... a vida também se faz de morte
Eduardo Dâmaso publica hoje no Público um artigo com o título .Gato Escondido.., no qual se associa aos protestos corporativos ontem conhecidos, a propósito da intenção do Governo de legislar no sentido de aplicar penas de prisão a empresários que pratiquem Lay-Off ilegal.
À pergunta .que quer afinal o governo?., é dada uma resposta ..institucionalização pura e simples do fecho de empresas por mera comunicação dentro do prazo... O que é interessante é a linha de argumentação usada para sustentar esta tese. A obrigatoriedade de apresentação de garantias bancárias como forma de salvaguarda das remunerações, vai ter um efeito contraproducente relativamente ao seu objectivo, afirma ED. E explica. Em virtude da não existência de património em nome da empresa, ou da fuga dos empresários prevaricadores, a lei que visa criminalizar algo até hoje omisso, não vai ser bem sucedida, porque depende da intervenção da Policia Judiciária, e dos Tribunais. Para uma, ED limita-se a colocar umas aspas, ou seja, está implícito o seu não funcionamento. Para os outros usa-se o chavão da ..prática corrente dos nossos tribunais. Não deve haver um único caso de aplicação de uma pena de prisão efectiva em crimes com uma moldura penal inferior a três anos...
Mais uma vez, se critica a intenção legislativa na base da demagogia que é a constante afirmação do não funcionamento das instituições. E assim se diz mal, sem apresentar alternativas. A conclusão do artigo é lamentável: .Para lá de não poder ser levada a sério em termos práticos, também não assusta ninguém. Muito menos os supostos empresários que não estão habituados a respeitar qualquer lei nem se incomodam muito com este tipo de ameaças de prisão..... Então, se os empresários são .supostos., é mesmo bom que as suas .supostas empresas. encerrem, para que as verdadeiras possam trabalhar. Se não se incomodam com .este tipo de ameças de prisão., ou seja as que constam de uma (futura) lei da República Portuguesa, de que tipo deveriam ser as ameaças?
Todos aqueles que resistem, acreditando naquilo que fazem, ou amam, não estão perdidos. E nós, através deles, encontramo-nos.
Aceitando o desafio do Mata-Mouros deixo um pensamento sobre o papel do Presidente da República.
Nos últimos anos, após a inexistência política durante o tempo da outra senhora, e um excesso de intervenção na era pós-prec, os PR têm sabido estimular a apetência da população para o reconhecimento da sua figura como o "Pai da Nação". A prová-lo está a re-eleição, sem surpresa, de todos os PR, após os primeiros mandatos. Este aspecto tem sido sempre temperado com algumas pitadas de intervenção, quase sempre também numa toada paternalista. Neste sentido o nosso Presidente, apesar de ser da República, facilmente se poderia transmudar em qualquer monarca contemporâneo. Não o afirmo no sentido de criticar, apenas como observação de um interessante paradoxo. Seria interessante saber a opinião de Paulo Varela Gomes a este respeito...
Continuando em tom herético, recomendo a mais recente aquisição na loja do povo.

"O que era necessário era que o país se desenvolvesse, para que houvesse trabalho, para as empresas poderem admitir e conservar os seus trabalhadores."
comentário de Ludgero Marques - AIP
"Aí é exigida reformulação, para impedir o fecho de empresas e não legalizar uma prática que é condenável e a negação do direito ao trabalho, com empresas que fecham sem cumprir requisitos legais, nomeadamente o recurso ao despedimento colectivo ou à falência."
comentário de João Proença - UGT
Como habitual estes senhores estão de acordo. O objectivo do legislador deve ser criar, manter e impedir o fecho de empresas. Ou seja, tudo funcionaria melhor se os empresários e sindicalistas legislassem e por sua vez o governo e assembleia fossem para as empresas.
O Alfacinha confessa publicamente frequentar essencialmente a FNAC do Cascais Shopping, menos a do Colombo, e quase nunca a do Chiado. Mais grave que esta heresia é o motivo: música, fundamentalmente. Calculo que, nestas condições, nunca serei membro de pleno direito da blogosfera.
"É também um pouco a fantasia megalómana por excelência, da pessoa que se alimenta a si própria, da pessoa afectiva, relacional, socialmente não autónoma, mas arrogantemente só. Isto não é a capacidade de estar só, é precisamente o contrário. E é exactamente o contrário porque feita à custa da negação da dependência. (...) Só na capacidade de dependência é que se pode aceitar o amor. Porque se o indivíduo não aceita depender, não pode amar. Porque amar é depender!"
![]() | - Do you know who I am? - That makes no difference; all men are equal in God's eyes. - Are They?! |
![]() |
| All I ever wanted was to sing to God. He gave me that longing. And then make me mute. Why? Tell me that. If he didn't want to me to praise Him with music. why implant the desire, like a lust in my body? And then deny me the talent? |
| Mediocrities everywhere. I absolve you. I absolve you all. | ![]() |
F.Murray Abraham in "Amadeus", Milos Forman, 1984
Correndo o risco de ser (mais uma vez) acusado de falta de espirito crítico, não posso deixar de fazer (mais uma vez) de caixa de eco dos meus heróis do momento, a malta do Mar Salgado, os quais (mais uma vez) me faltaram ao respeito antecipando-se a 2 posts que o Alfacinha tinha pensado para hoje.
Enfim, só me resta corrigir a falta grave dos links para o Mar Salgado e Cristovão-de-Moura na coluna da direita, e reiterar o apelo de NMP, a discussão em causa é da ordem da inteligência, de parte a parte, e isso, é sempre um prazer e uma descoberta.
Não tenho. Confesso. Pensei, e pensei, mas não encontrei. Isso não quer dizer nada, é apenas reflexo das minhas insuficiências em erudição e pensamento histórico. Mas reconheço o problema. A sociedade humanista poderá ser um beco sem saída. O diagnóstico da aceleração da era da demagogia parece ter correspondência na realidade.
A possibilidade de repor a elite bem pensante no poder, talvez possa ser operada por via de um qualquer terrorismo bem organizado. Mas tenho sérias dúvidas que tal seja viável. Seria qualquer coisa como pensarmos que os iluminados (deste e de outros tempos) teriam feito uma experiência com o povo. A democracia à consignação. Perante o insucesso voltamos à fórmula antiga. O problema é que o povo na sociedade demagógica, pode não votar, nem ler, mas há sempre alguém que traduz Platão para uma linguagem pop.
Contestar o .fim da história. não é repescar o penúltimo capítulo.
Uma é suficiente.
Começo pelo mais importante, que é dar o meu contributo à Charlotte, com uma sublime letra de uma estival cançoneta:
"Bam me la, Bam me paia pa, Bam me la, Bam me paia."
(isto foi o que consegui apanhar, não sou grande coisa com a lingua francófona, lamento...)
Aproveito para recomendar a artista, dá pelo nome de Isabelle Antena, já andou por aqui, muito bem acompanhada, e agora dizem que vai para aqui, onde também não destoa no ramalhete.
Um pouco de sal faz sempre bem. Sobretudo depois de tanto exagero no açucar. E não é disparate nenhum, o post com o mesmo nome.
Não é verdade que se dialogue com o terrorismo. Primeiro exige-se aos terroristas que deixem de o ser. Depois dialoga-se. Foi assim na Irlanda do norte, é assim em Espanha, tem sido assim, quando ele deixa, com Arafat.
Não é verdade (pela enésima vez) que o dirigente terrorista morto seja moderado. JPP já explicou porquê com muita clareza.
Não é o grau de penetração do Hamas na sociedade Palestiniana que lhe confere legitimidade. Significa mais perigo, isso sim. O partido Nazi na sociedade Alemã acabou a governar todo o País. Aproveitando a legitimidade democrática da época para se afirmar. Não ficou conhecido pela capacidade de diálogo. E muitos dos que tentaram esse diálogo não ficaram vivos para contar a história.
Claro que podemos sempre rebuscar no passado para sustentar qualquer linha de argumentação. Seja para responsabilizar a politica de Sharon pelo incêndio de agora, seja para tentar justificar qualquer terrorrismo actual a partir de provocações anteriores. Mas em algum momento do tempo se tem de parar, e começar de novo. O Roteiro oferece, mais uma vez, essa oportunidade. Nesta fase, Sharon e Mazen, parece entenderem isso. Se assim não fosse, a resposta de Israel não seriam os mísseis contra um terrorista, seria o olho por olho, dente por dente, concretizado em ataques à população civil.
E mantenho a afirmação de que o exercito de Israel desenvolve uma guerra justa contra um inimigo. Esse inimigo não é a população civil Palestiniana. São os terroristas. Esses são os militares alvo. Mais uma vez repito: é essa separação que é necessário fazer, os terroristas não são a população civil. Não subscrevo essa ideia de que "a guerra tem de ter 2 lados", como se só assim fosse justificavel a legitima defesa. Se um grupo de pessoas, seja quem for, ataca outro com bombas, só porque não seguiu as convenções da guerra tradicional, já não é possível ao primeiro grupo o direito à legitima defesa? Isso é que me parece uma lógica perversa.
Paulo Varela Gomes propõe alternativas ao sistema de sufrágio universal. A leitura deste texto motivou-me um profundo reaccionarismo. O exercício académico de ataque à democracia, quando perpetrado de forma inteligente, como é o caso, atingi-me sempre de forma mais emocional que racional. O meu ser adulto não se revê na tradição jacobina, mas um ser mais inconsciente dentro de mim, revolta-se de cada vez que alguém ataca os fundamentos laicos e republicanos da nossa democracia ocidental.
A primeira alternativa proposta por PVG seria uma delegação de poder nas universidades, no sentido de estas escolherem quem seria eleitor e quem não teria tal direito. Infelizmente não se enunciam critérios para tais juízos, apenas se compara a função ao exercício do poder judicial. Comparação indevida. A sociedade dos 3 poderes confere ao poder judicial a função de administrar a justiça, não a sua definição. Confiar às universidades a definição de critérios de qualificação para se ser, ou não, membro da elite que elegeria quem governa, significaria na prática a entrega de todo o poder na instituição universitária.
Uma versão mais soft, na óptica de PVG, seria um sistema, pouco original, de eleitores especiais, mais uma vez recorrendo a um critério de .mais instruídos que o povo., os quais elegeriam então câmaras, e estas o governo. Tudo para se conseguir o objectivo central, a eliminação da influência dos partidos políticos. PVG é explicito neste ponto: .os alinhamentos são tanto mais imprevisíveis quanto mais gente existir com poder real, e não apenas com poder de voto... Imagine-se a confusão que seria a governação, constantemente disputada por múltiplos interesses corporativos, sem a mediação ideológica que a moldura partidária fornece.
Entre um regresso a uma qualquer oligarquia e o desvario libertário que abomina a democracia representativa, prefiro definitivamente Churchil.
Se a Europa quiser de facto ser a vanguarda civilizacional de que se auto-rotula, deve urgentemente encarar a questão do terrorismo de frente. Este olhar para o lado, fingir que não é nada connosco é o maior dos perigos. Quando as bombas (ou seja lá o que vier por aí) começarem a explodir nos centros do politicamente correcto, o mais certo é assistirmos a uma indignação tão grande quanto a surpresa. O estado de choque não é bom conselheiro. Corremos o risco de nos tornarmos o mais bárbaro dos carrascos, e então de nada valerá qualquer discurso.
As lições da década de 30 não foram aprendidas por alguns e já foram esquecidas por outros. É inquietante perceber na actual atitude de muita gente face ao terrorismo, a mesma falta de vontade de enfrentar, o mesmo incómodo, que existia nas democracias face à ascensão nazi. Os bem pensantes da época não acreditavam que o mal os pudesse atingir. Tal atitude permitiu o crescimento do polvo, a sua forte implantação em alguns países e a indiferença perante a invasão de outros.
Os terrorismos europeus estão em decadência. Isto dá-nos uma falsa sensação de segurança e permite os equívocos de que falei no post anterior. Estará implícito no pensamento de muita gente que o actual estado de ascendente sobre os .nossos. movimentos terroristas radica na superioridade moral concedida pelas virtudes do diálogo, compreensão, moderação. Nada mais falso. A .segurança. europeia resulta essencialmente da existência de um País como os EUA.
É urgente separar as águas. Não podemos continuar a discutir como se os terroristas fossem partidos políticos ou movimentos sociais com direito à existência. O terrorismo só pode ser combatido, nunca tolerado. Esse combate começa no seu isolamento ideológico, na recusa de armadilhas justificativas. O inimigo principal do terrorismo não é o imperialismo militar, nem o poder económico. Somos nós, os tais moderados.
O Terras do Nunca insiste em alguns equívocos que são constantes no debate sobre o médio-oriente, e sobre o terrorismo em geral.
Quando se perspectiva a acção militar do estado de Israel como uma guerra, o sentido é esse mesmo. É um estado, com dirigentes democraticamente eleitos que, em nome da população, desenvolve acções militares. Estas acções, pela informação que nos chega, e apesar de muito ruído, são dirigidas contra quem ameaça as populações civis e/ou a integridade do estado. Nestas condições é legitimo falar-se dos Israelitas. Não vejo onde está o terrorismo nas referidas acções. Os civis de Jenin ou de Ramalat são vitimas, não o alvo. Vitimas pela proximidade (intencional ou não) a elementos terroristas, esses sim o alvo militar.
Já não me parece legitimo colocar do outro lado os Palestinianos. Do outro lado desta guerra estão as organizações terroristas, o Hamas, a Jihad. Estas organizações, independentemente do seu nível de popularidade, não são representantes de nenhum estado. Não respeitam nenhuma das regras, internacionalmente convencionadas, que conferem a legitimidade para desenvolver acções militares. Aliás, não desenvolvem acções militares. As acções militares visam primariamente alvos militares, não alvos civis. Recuso a mistura dos terroristas com os legitimos representantes da população Palestiniana. Abu Mazen é moderado. Arafat tem muita dificuldade em enterrar o seu passado terrorista. Dificilmente pode portanto ser moderado.
Alguém toma a ETA por legitima representante da população Basca? Porque é que não nos referimos aos Etarras como "Bascos" (no sentido em que se fala dos Palestinianos)? Não está Espanha em guerra com a ETA? Ninguém se levanta para condenar um ataque do Governo Espanhol a terroristas da ETA. Esses ataques, acções militares, são semelhantes ao que Israel faz. Mas não nos referimos a eles como "terrorismo de estado". Claro que há diferenças. Mas o fundo da questão é o mesmo.
Com o terrorismo não se dialoga. O terrorismo é, em si mesmo, a recusa do diálogo. Esta afirmação desmonta-se a si mesma: "Há quem não consiga entender que, entre os radicais palestinianos, haja moderados.". Se são radicais, não são moderados. Se fossem moderados dialogavam, não eram radicais. Não há memória de diálogo com organizações terroristas. É fácil entender porquê. Os terroristas bombardeiam, literalmente, o diálogo. Fizeram-no em Jerusalém, ao rebentar com o Roteiro, fizeram-no em Bagdad ao rebentar com uma conferência de imprensa na sede do diálogo mundial, a ONU.
É violento sim. Despejar 5 mísseis para matar um terrorista é violento. Mas não me digam que tem alguma semelhança com um ataque suicida contra um autocarro cheio de crianças. É insultar a sua memória. Mesmo se dito serenamente.
Quanto mais se fala nos Palestinianos a propósito do Hamas, ou nos Iraquianos a propósito das acções das milicias Fedahin, ou na classificação da acção militar Israelita como "terrorismo de estado", mais força se dá ao terrorismo. Objectivamente.
O Terras do Nunca pede ajuda para a compreensão da retaliação de Israel, após o atentado de Jerusalém. O País Relativo procura o "outro lado" do terrorismo. O Cruzes Canhoto apercebeu-se finalmente do atentado contra o autocarro num post que começa com "A TRÉGUA ISRAELO-PALESTINIANA ACABOU após o assassínio de um dirigente do Hamas." terminando também com uma interrogação sobre os intuitos Israelitas.
O Hamas é um bando de terroristas. Ponto.
Qualquer dirigente ou activista do Hamas é um terrorista. Ponto.
A palavra moderação aplicada a esta gente é um insulto a todos os que morrem nos atentados. Ponto.
O autocarro de Jerusalém não transportava nem militares, nem terroristas, nem moderados, simplesmente crianças. Ponto.
O atentado contra o autocarro compromete sériamente o Roteiro. Ponto.
Os mísseis contra um dirigente terrorista, na sequência de um acto hediondo, não são terrorismo. São um acto de guerra. Ponto.
Qual é a parte que falta compreender?
Havia uma luz num destes dias
Passados mas presentes no silêncio
Das imagens repetidas no cinzento
Que cobre com a morte até os rios
Onde navega sempre o pensamento
Uma luz que só o sol escurecia
A cobrir a noite e o nevoeiro
Uma imagem talvez... aí esculpida
Pelas raízes que eram outras mãos
A derramar palavras pela vida
Luís Araújo - Na Margem do Silêncio (não publicado)
Já aqui escrevi sobre o luto. Hoje, não me apetece.
Podem fazer-se muitas análises complexas, debates e tudo o que quiserem. Mas se alguma coisa é indesmentível no significado comum dos atentados de ontem é a identificação do alvo da barbárie. O alvo é, claramente, a civilização plural, a democracia. Seja na pessoa de representantes de instituições supra-nacionais, seja na pessoa dos inocentes da cidade que devia ser de todos. Nem uns, nem outros, são menores nessa representação. Merecem o nosso luto, mas sobretudo a nossa luta.
O inimigo não é a Casa Branca. Quantos mais terão que morrer até se entender isto?
Se a Torre Eiffel, ou o Arco do Triunfo fossem destruídos seria mais claro?
Há quem continue a olhar para o lado, dizendo "isto não é comigo". Talvez receba um dia destes uma carta com um esclarecimento.
Ana Gomes, Mário Soares, e todos os outros que agora acordam para o terrorismo com emoção e indignação por perceberem, finalmente, contra quem são os atentados, merecem todo o meu desprezo.
Desprezo proporcional ao desprezo que merecem, a eles, as vítimas em Jerusálem, vítimas de um terrorismo "justificado", que não lhes suscita a mesma emoção, nem sequer uma palavra. Desprezo proporcional à falta de vergonha presente na quantidade de palavras arremessadas nesta hora contra os Americanos, quase chegando a responsabilizá-los pelos actos hediondos hoje cometidos. Desprezo pelo júbilo, mal disfarçado, perante a perspectiva de fracasso do Roteiro.
Pelo menos o Desesperada Esperança, o Aviz, o Mata-Mouros, o Jaquinzinhos, o Homem-a-Dias, o Mar Salgado, já disseram isto antes de mim (e muito mais). Associo-me, em pleno, ao que está publicado por lá.
Os libertários sonham com o regresso a um estado anárquico das coisas, sem poder, sem hierarquia. Regresso, sim, não me enganei. A utopia é, paradoxalmente, a vontade do regresso ao passado mais antigo. Que nunca existiu.
A hierarquia é inerente à condição animal e, por inerência, à condição humana. Este micro-cosmos é da ordem do humano, não escapará a essa regra. Todo o estado de graça contem, em si mesmo, a desgraça anunciada.
Não é muito, mas suficiente. O afastamento ajuda sempre a perspectivar melhor aquilo que se vive.
Quando me fui, o Paulo Querido tinha acabado de publicar um texto sobre blogs no Expresso. Apesar de compacto e omitindo, propositadamente, a história mais recente, é talvez o primeiro artigo sobre o tema que fornece informação contextualizada, para além da importância dos nomes de bloggers, corrigindo alguns equívocos.
Assim que voltei, passei os olhos pelos blogs do costume (a famosa blogosfera) na expectativa de encontrar múltiplos comentários e discussões sobre o texto. Tal tem sido o hábito nos últimos meses com cada referência que surge na imprensa, a ser de imediato criticada, defendida e opinada por parte dos blogs (citados ou não nos artigos). Alguma admiração senti perante a quase total ausência de reacção. A excepção encontrei-a num blog que aprendi a respeitar pela lucidez e sobriedade dos seus incisivos posts. A Liberdade de Expressão passa, a partir de hoje, a figurar na coluna do lado direito. Já lá devia estar.
Não penso ser inocente, nem pouco importante, esta passagem ao lado. Não pretendo, de forma alguma, envolver-me na discussão sobre a paternidade (ou maternidade) da blogosfera. Mas penso que o entusiasmo que tantos artigos na imprensa sobre a blogosfera suscitaram, a par com a frieza com que este texto é agora recebido, diz qualquer coisa sobre quem se pronuncia. Ou o contrário. Não se leia aqui ataque e defesa, nem a uns nem a outros, é apenas uma tentativa de meta-blogging, afinal também tenho direito.
Tenho alguma resistência a considerar que o fenómeno dos últimos meses, ou seja, a entrada no meio de uma certa elite de opinião e consequente criação de uma comunidade mais ou menos bem delimitada, possua a importância, do ponto de vista quantitativo, que por aqui muitas vezes lhe damos. Actualmente existe em Portugal mais de um milhar de blogs. Por outro lado os principais leitores de blogs são os próprios bloggers. Mesmo os blogs mais concorridos, à excepção de 2 ou 3, não são visitados diariamente por mais que escassas centenas de leitores. Considerando todos estes dados, tenho sérias dúvidas que o fenómeno tenha expressão significativa, para além da própria comunidade.
O que é novo nos últimos meses é a composição da própria comunidade, e Paulo Querido aqui tocou na ferida. Pela não referência. Os artigos na imprensa traduzem o envolvimento pessoal (ou a vontade de se envolver) dos colunistas, ou seja, da comunicação social. Esta comunicação social não se apercebeu de nenhum fenómeno anterior às discussões políticas Infames/Esquerda, não porque não existissem blogs já em actividade, nem pela quantidade de page views que estes poderiam ter. Simplesmente essa comunidade (ou conjunto de pequenas comunidades) existia, e existe, a partir de um outro fenómeno mais antigo: a Internet. Ao contrário a nova geração de bloggers utiliza o meio. Se procurarmos um fio condutor nos blogs .históricos., encontramos quase sempre algo que relaciona o blogger com tecnologia, com informática. O blog surge, em muitos casos, como mais uma forma de partilha de experiências de e para uma comunidade relativamente especifica, que cresceu com a própria Internet, que se conhece das escolas e universidades técnicas.
Em contrapartida, a maior parte dos bloggers oriundos do mundo dos media (ou aparentados), se bem que atentos à tecnologia, às suas potencialidades, não passam a vida a discuti-la. Interessam-se por temas das ciências sociais, pela politica, pelas artes. Nos blogs mais novos não há muita preocupação com os aspectos técnicos subjacentes, nem se tira partido de toda a potencialidade do meio. A maior parte dos .novos. concentra-se no conteúdo (o que não é garantia de qualidade do mesmo, nem o contrário), relegando o instrumento de publicação para segundo plano. Compreende-se , não é essa a sua vida. Também se compreende que, sendo essa a vida de muitos dos bloggers mais antigos (é por isso que são bloggers) lhes cause repugnância tal atitude.
Não creio que seja uma questão geracional, nem pretendo fazer aqui sociologia de pacotilha, sobretudo porque isto são observações limitadas pela minha lupa pessoal, sem qualquer critério cientifico a sustentá-las. Mas a simplificação que proponho penso que distingue, a traço grosso, a realidade desta blogosfera (à qual pertenço), da outra.
O ponto fundamental que pretendo frisar é a pouca comunicação entre os dois mundos. Personagens de fronteira, como o Paulo Querido por exemplo, são poucos. Ele tenta fazer a ponte, mas de facto os dois mundos co-existem sem muita inter-penetração, não há muita comunicação. São línguas diferentes. Um bom exemplo deste diálogo de surdos é a caixa de comentários associada ao post do próprio Paulo Querido sobre o seu artigo no Expresso.
Claro que tudo isto tem um preço. O desinteresse dos actuais colunistas pela história e experiências dos que andam cá há mais tempo, andamos todos aqui feitos colonizadores de um mundo novo, ignorando os indígenas que já cá estavam, faz com que muitas vezes se cometam erros já ultrapassados por outros. Da mesma forma o sentimento de invasão e injustiça que muitos dos antigos sentem não ajuda à partilha. Afinal o mundo informático, hoje como ontem, não é conhecido pela capacidade de insight e comunicação com o exterior. Sei bem do que falo. Pertenço a esse mundo.
tentativa de utilização do TrackBack... vamos lá a ver se funciona
Há por aí algumas indignações. Dizem que falamos do que não interessa. Aqui o Alfacinha vai dar uma volta pelo País profundo, onde a internet escasseia, não tendo o director desta tasca essas modernices que permitem blogar de qualquer lado. Tenho a certeza que ficam muito bem entregues agora que os bons começam a voltar.
Com esta conversa parece que aquilo que aqui se escreve é terrivelmente importante e que vou ficar um mês fora. Não é verdade, nem uma coisa, nem outra.
A propósito do tal estudo, uma frase do Muro Sem Vergonha:
"...apenas de um possível modo de funcionamento de psiques que resistem à mudança e sonham sempre com regressos a passados idealizados."
Esta definição encaixa que nem uma luva no radicalismo ecológico, em todos os Louçãs, nos descendentes de Álvaro Cunhal, na grande maioria dos libertários...
Todos conhecidos conservadores. De direita.