dezembro 17, 2003

21:35

Entrei. O pequeno café, com um aspecto inofensivo e sossegado visto de fora, afinal fervilhava de actividade no seu interior. Apesar do exiguo espaço, e reduzido número de clientes devido à hora nocturna, disponibilizava ainda o serviço de 3 empregados, um homem e duas mulheres, que andavam numa roda-viva atrás do balcão. Foi sem ouvir a minha própria voz que formulei o pedido, devido ao nível de ruído provocado pelas competição de gritarias à minha volta. Ao olhar para trás, e depois para cima, percebi o que se passava: um jogo de futebol na televisão era o mote para todo o frenesim. De facto, a agitação de cerca de 6 ou 7 clientes e dos empregados era para mim desconcertante. Ao meu lado dois homens conversavam (?), também eles em forte berraria, já que era a única forma de se escutarem. Quando pensava já não ser possível elevar ainda mais o nível de decibeis, eis que surge um novo som, o típico relato radiofónico. Estranhei o estilo, afinal, na TV, a imagem domina e as palavras são redundantes, mas depois percebi o fenómeno. Era outro jogo, transmitido pela rádio. Nesta altura do campeonato já não conseguia ouvir os meus próprios pensamentos, de maneira que me divertia a observar os sinais exteriores da adrenalina nas pessoas que me rodeavam. Pouco tempo depois uma voz grita: "desliga isso, o Benfica marcou!". Isso era o rádio. Agora que havia um golo já era importante ouvir o que diziam os comentadores televisivos. Tarefa inglória, vi os pauzinhos verdes do indicador de volume aparecerem uns após os outros, mas era completamente impossível escutar uma palavra que fosse. Mesmo assim lá se deixou o volume no máximo, sempre ajudava à festa.

No meio de toda a algazarra um homem colocou-se ao meu lado, no balcão, fazendo sinais (já que qualquer som seria irrelevante) aos empregados de queria pagar a despesa. Estes, a um canto, envolvidos numa discussão séria sobre a qualidade de um jogador, não lhe ligaram peva, isto apesar de olharem para ele. Era como se estivessem cegos. Ao fim de algumas tentativas, o homem desistiu e foi-se embora. Posso afirmar, com propriedade, que fui o único a reparar.

Quando saí do café tive a sensação de abandonar um campo de batalha, no auge do confronto. E soube-me muito bem o silêncio da noite.

Publicado por Carlos em dezembro 17, 2003 11:29 PM Secções Apontamentos
Comentários

É precisamente quando saímos que nos pergunta-mos porque entramos.
Os que lá ficam dentro vão pensar a mesma coisa quando saírem. A diferença é que eles entraram provavelmente juntos e antes do ambiente estar contaminado de fúria e euforia.
Sem se darem conta, todos eles foram aos poucos sendo envenenados ... só darão conta disso quando saírem ...e nessa altura concerteza também dirão..."como é belo o silêncio da noite".
Cumprimentos do duque

Afixado por: Duque em dezembro 20, 2003 11:20 AM

O Carlos teve azar ao entrar num café dominado pela "clubite" aguda...

Afixado por: Peixoto em dezembro 20, 2003 02:02 PM