A Aldeia da Luz representa um bom exemplo da atitude de recusa do luto, e respectivas consequências. Há algumas dezenas de anos, seria impensável a reconstrução mimética de toda uma povoação, perante o avanço do “progresso”. E se é evidente que o choque psicológico infligido aos desalojados (de forma irreversível), na hipótese de não se construir nenhuma “nova aldeia”, seria, num primeiro momento, com certeza superior, já não é tão evidente a vantagem a médio e longo prazo.
Para além do projecto, para além dos holofotes, que agora se começam a apagar, os habitantes são agora confrontados com uma realidade física, que quanto mais parecida se faz à memória afectiva, mais torna esta última presente, e portanto mais lhe faz sentir a falta. É como se a uma mãe, lhe fosse tirado um filho, e depois se lhe entregasse uma “réplica”. Quanto mais perfeita, do ponto de vista da semelhança, maior a dificuldade em superar a dor pela perda.
Claro que o que aparece são todas as queixas pelo não funcionamento disto o daquilo. E pode-se tentar prosseguir a ilusão. A questão, vista de uma forma superficial, será o cumprimento de todas as promessas feitas à comunidade, na tentativa de conseguir ao mesmo tempo, a réplica da “velha aldeia”, mas com todos os confortos inerentes a qualquer obra nova. Nesta equação, tão positivista, falham os factores mais importantes: a vida, a morte e a memória afectiva. A essência da vida, que os habitantes não sentem no novo largo, tão vazio, tão despido. E talvez a não presença dos habitantes no largo seja a sua forma de tentar reencontrar aquilo que lhes tem sido negado: a possibilidade do luto. Só quando o novo largo se não parecer com o velho, poderá aquele substituir este. Até lá, apenas jornalistas e turistas o visitarão.
Publicado por Carlos em novembro 22, 2003 01:51 PM Secções SociedadeTriste ironia a de "copiar" uma aldeia inteira de nome Luz. De facto, a luz que se abate sobre a população parece ser negra, mas, quanto a mim, muito por culpa de duas características da população alentejana: o preconceito da "anti-modernidade" e a mania da desconfiança.
O povo português e o alentejano em particular é "queixinhas" por natureza e nada lhe serve... Nesta situação do Alqueva, ora se queixavam por não haver barragem, ora se lamentam agora por a Nova Luz não ser igualzinha à velha Luz, ora desconfiam dos reais benefícios da barragem. Enfim, tudo conta desde que seja para criticar...