Ao ouvir Joaquim Vieira, num debate (Directo ao Assunto, TSF) sobre Deontologia e Jornalismo, tentar justificar o injustificável, evocando conceitos como “Liberdade de Expressão” e afins, para “contextualizar” o desgraçado panorama de selva e recuo civilizacional que se vive na comunicação social, ocorreu-me um pensamento. Por todo o lado, a propósito de violações grosseiras de regras de conduta, de atentados ao bom-nome, quase sempre ligados a estratégias comerciais, se tem evocado esta “perspectiva liberal”, se tem justificado com o palavrão da liberdade toda a infâmia.
Há aqui uma confusão terrível. A questão da liberdade de expressão, ou falta dela, coloca-se sempre que um determinado poder, normalmente politico, impede ou reprime a expressão, a divulgação de determinado conteúdo, fazendo uso de instrumentos de censura, policiais ou outros. Tudo isto é característico da sociedade não democrática, do poder não eleito, do sistema não controlado pela população. Por outro lado o controle sobre o cumprimento da legislação, inerente ao exercício do poder democrático, nunca pode ser confundido com censura. É aliás um dos garantes da própria natureza democrática da sociedade. Confundir a intervenção do poder, neste sentido que visa precisamente garantir a preservação da liberdade, com uma qualquer censura, evocar constantemente o direito à liberdade de expressão, é um insulto a todas as verdadeiras vítimas de actos de repressão ou censura.
Publicado por Carlos em novembro 9, 2003 11:52 AM Secções SociedadeSobre esta melindrosa questão de «liberdade de imprensa» que, na minha opinião, é a verdadeira alma da vida democrática, há a considerar que tanto mais pode ela exercitar-se quanto maior for o nível cultural dos intervenientes. Há que ter em conta que sempre, ao longo da história, toda e qualquer forma de escrita, predecessora dos actuais orgãos de comunicação social, foi considerada um instrumento de poder. E ainda mais nas sociedades em que o sagrado se sobrepunha ao profano - das hierarquias egípcias à escolástica medieval - circunstância segundo a qual eram os grupos de elite que detinham o monopólio desse poder. Ora todos os Grupos de Elite gozam tradicionalmente dessa auréola de Cultura e é por ela que se justificam e, ao mesmo tempo é por ela que sustentam o poder. No nosso caso, poderão acontecer duas coisas : ou de facto as pessoas são realmente cultas e servem todo o público sem interesse algum a não ser esse mesmo: serem veículo de formação/informação; ou então, manobrados por intenções ocultas de defesa de interesses privados tentam singrar, através de águas turbas, por terrenos que, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser a sua própria auto-destruição. E isto porque servem apenas de intermediários de alguém que, as mais das vezes, apenas veêm na «comunicação social» um mero campo de negócio a que o tempo se encarregará de transformar em 'beco sem saída'. Será caso para dizer, na segunda acessão: " os cães ladram e a caravana passa ! "
Frassino Machado