Uma semana em cheio. Dois excelentes filmes e uma primorosa coreografia.
Dogville, de Lars Von Trier. Não li críticas, mas provavelmente haverá quem ame ou odeie este filme. De facto, o desconforto inicial causado pelo dispositivo cénico e postura dramática, os quais apostam num despojamento radical, fez desde logo baixas na audiência presente na sala. Aguentei firme. E não me arrependi nada, antes pelo contrário. A galeria de personagens (sublimemente interpretadas) é uma orquestra afinada, conduzida com mestria por Trier. A tragédia em 9 capítulos (e 1 prólogo) revela-nos, sem concessões a rodriguinhos ou desculpas politicamente correctas, a capacidade humana para, simultaneamente, amar e estrangular o outro. Está tudo à vista (literalmente).
Kill Bill, de Quentin Tarantino e Uma Thurman. Claro que é narcisista este filme. Se não fosse, não tinha piada nenhuma. Mas atente-se no imenso respeito que este cineasta e seus comparsas, em particular Uma Thurman, têm pelos géneros que homenageiam. QT podia ter feito apenas mais um filme contado à QT. Mas fez isso, não abdicando do seu próprio estilo, conseguindo integrar, sem mácula nem pastiche, algumas das correntes marginais com maior tradição, nunca os desvirtuando, antes os integrando numa obra coesa e muito, muito saborosa. Felizmente, ainda vai a meio.
A Sagração da Primavera, de Marie Chouinard, pelo Ballet Gulbenkian, com direcção artística de Paulo Ribeiro. Stravinski, ao compor a Sagração, deve ter imaginado esta coreografia. A mecânica dos corpos é audível através das notas. Cite-se a autora: “Não existe história na minha Sagração. Para mim é como se lidasse com o último instante imediatamente anterior ao primeiro momento de vida. O espectáculo é o desdobrar desse momento. Sinto que antes desse momento terá existido uma extraordinária explosão de luz, um clarão de iluminação.”.
O que tem tudo isto de comum? O excesso, a intensidade. A intensidade dramática de Dogville é necessária, sem ela o filme seria apenas um manifesto intelectual vazio. Tarantino consegue a unidade sensorial perfeita entre imagem e som, ambos com o volume no máximo. Os esgares, soluços e repentes dos corpos, em sincronia com a música, correspondem à forma como Marie Chouinard sente a própria vida. E afinal, é isso mesmo que gosto mais de sentir quando me faço espectador. Esta semana fui um privilegiado.
O Ballet Gulbenkian sempre fantástico, num sábado à noite de sala esgotada.
O novo director artístico apresentou um programa arrojado, para alegria de muitos e desgosto de outros (mais convencionais).
Eu gostei. E mal posso esperar por Janeiro, para ver o próximo espectáculo da temporada.