Se para mim é fácil decidir sobre a questão da realização ou não do referendo, já não se me afigura como tarefa simples o sentido de voto em si. De todas as questões em causa, há uma em particular que me suscita bastantes dúvidas. Refiro-me aos comissários de primeira e de segunda.
Se tivesse que pensar em abstracto tenderia a concordar com a lógica simples que determina uma proporcionalidade entre a representação dos estados e a própria dimensão destes, de acordo com critérios de número de habitantes, dimensão do território ou outros. Imaginemos por um instante que a “nossa” Madeira se tornava independente. Que sentido faria o poder de decisão de uns poucos milhares de habitantes, ter o mesmo peso que países como a Espanha, ou a Holanda?
O problema é que a questão, além de não ser colocada em abstracto, Portugal é um dos “países pequenos”, não pode ser desligada do comportamento concreto que os “países grandes” (Alemanha, França, Inglaterra) têm tido, em particular nas últimas semanas. Todos os sinais apontam no sentido da efectivação do directório. Para além das cimeiras particulares, do próprio processo de criação do texto constitucional, surge agora uma repugnante chantagem sugerindo um eventual condicionamento dos fundos à aprovação do texto. Reconheço todavia que esta perspectiva é muito influenciada pela minha condição de “cidadão de país pequeno”. Quero dizer, emocional.
Talvez a (minha) decisão possa passar por tentar perceber que Europa gostaria de ter. Se a resposta for “Europa-comunitária-regida-por-tratados-internacionais”, então continuará a fazer todo o sentido o igualitarismo de comissários. Se por outro lado pensar que, mais tarde ou mais cedo, avançaremos para uma fusão dos estados (não uma federação), então talvez a melhor solução seja mesmo a representatividade proporcional. Nesta nova equação há uma possível reconciliação entre a emoção e a lógica, já que prefiro a primeira alternativa, não por qualquer raciocínio fundamentado mas pura e simplesmente por intuição.
Publicado por Carlos em outubro 6, 2003 11:21 AM Secções Política