"LAGOA DA POSSE
Nada se penetra, nem átomos, nem almas. Por isso nada possui nada. Desde a verdade até a um lenço - tudo é impossível. A propriedade não é um roubo: não é nada.
O RIO DA POSSE
Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade. Só nos parecemos ele longe, na proporção, portanto, em que não somos nós. A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns.
Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo. O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro?
Somos forças porque somos vidas. Cada um de nós tende para si próprio com escala pelos outros."
Bernardo Soares - Livro do Desassossego . Os Grandes Trechos