agosto 22, 2003

Reacção

Paulo Varela Gomes propõe alternativas ao sistema de sufrágio universal. A leitura deste texto motivou-me um profundo reaccionarismo. O exercício académico de ataque à democracia, quando perpetrado de forma inteligente, como é o caso, atingi-me sempre de forma mais emocional que racional. O meu ser adulto não se revê na tradição jacobina, mas um ser mais inconsciente dentro de mim, revolta-se de cada vez que alguém ataca os fundamentos laicos e republicanos da nossa democracia ocidental.

A primeira alternativa proposta por PVG seria uma delegação de poder nas universidades, no sentido de estas escolherem quem seria eleitor e quem não teria tal direito. Infelizmente não se enunciam critérios para tais juízos, apenas se compara a função ao exercício do poder judicial. Comparação indevida. A sociedade dos 3 poderes confere ao poder judicial a função de administrar a justiça, não a sua definição. Confiar às universidades a definição de critérios de qualificação para se ser, ou não, membro da elite que elegeria quem governa, significaria na prática a entrega de todo o poder na instituição universitária.

Uma versão mais soft, na óptica de PVG, seria um sistema, pouco original, de eleitores especiais, mais uma vez recorrendo a um critério de .mais instruídos que o povo., os quais elegeriam então câmaras, e estas o governo. Tudo para se conseguir o objectivo central, a eliminação da influência dos partidos políticos. PVG é explicito neste ponto: .os alinhamentos são tanto mais imprevisíveis quanto mais gente existir com poder real, e não apenas com poder de voto... Imagine-se a confusão que seria a governação, constantemente disputada por múltiplos interesses corporativos, sem a mediação ideológica que a moldura partidária fornece.

Entre um regresso a uma qualquer oligarquia e o desvario libertário que abomina a democracia representativa, prefiro definitivamente Churchil.

Publicado por Carlos em agosto 22, 2003 11:36 PM Secções Sociedade
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