agosto 29, 2003

De novo??

O Terras do Nunca entusiasmou-se com um artigo do Washington Post e cita-o (não é bem uma citação, mas vá lá...), como se fosse alguma novidade:

"O sentimento de instabilidade na sociedade, o medo da morte, a intolerância face à ambiguidade, a necessidade de reclusâo, uma baixa complexidade cognitiva e um sentimento de ameaça são os factores que levam as pessoas a optarem politicamente pela direita.".

para depois concluir sarcasticamente:

"É claro, se não quiserem entrar no debate sobre Joni Mitchell, poderemos sempre discutir porque é que tantos blogues apresentam uma «baixa complexidade cognitiva». Ou porque é que outros revelam uma tão grande «intolerância face à ambiguidade». E porque haverá outros que não têm medo da morte.".

Nada disto é novidade, nem vale a pena colocar links (seriam tantos), esta questão já foi suficientemente discutida nos blogs portugas (e outros), e não há muito tempo.

Mais importante é a falta de rigor, o artigo do WP surgiu precisamente para desmistificar aproveitamentos destes. Leia-se bem o artigo, para além do primeiro parágrafo, e tirem-se quaisquer dúvidas.

E mais importante ainda, é a deturpação, habitual, de dados que se pretendem científicos, apresentados fora do contexto, a não profissionais. É antiga prática (jornalistica), e já devia ter desaparecido, usar estudos sobre o comportamento (sobretudo os fundamentados estatisticamente), que muitas vezes empregam palavras que no senso comum querem dizer uma coisa e no contexto cientifico outra (por exemplo neurose), para justificar esta ou aquela teoria. O que se afirma empiricamente, ganha assim outra "validade", e isso tem um nome: manipulação. Este senhor sabe do que falo.

"Thus our research is best understood as addressing the cognitive and motivational bases of conservatism (and liberalism) rather than the personalities of conservatives (and liberals)." (do artigo)

Isto foi o que o Terras do Nunca fez ao debruçar-se, jocosamente, sobre a "suposta" personalidade de alguns autores de blogs. Ou o título do post, "Direita/esquerda, uma patologia", que é exactamente o desmentido principal contido no artigo. E para o perceber nem era necessário ler mais que o título...

E depois há sempre a confusão (implicita neste caso) do costume, que é misturar orientações politicas (direita, esquerda, conservadorismo, liberalismo) com o grau de rigidez mental (para usar uma expressão simples). Já lá vai o tempo em que se podia simplesmente falar da direita e da esquerda nesses moldes. Não são as convicções politicas em si mesmas, é a forma como são apreendidas e utilizadas por cada um, o aspecto relevante. Há muitos conservadores (no sentido de maior rigidez) na (extrema) esquerda, e muito liberais na direita (não extrema). E os libertários, onde estão?

Quem é que, afinal, vê o mundo a preto e branco?

E o que é que a Joni Mitchell tem a ver com isto? As preferências musicais são indicativas? Eu gosto muito de Rickie Lee Jones, de Annete Peacock, de Suzanne Vega (e muito mais, mas não quero ser maçador). Será que isto me classifica politicamente?

Publicado por Carlos em agosto 29, 2003 12:38 PM Secções Política
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