É verdade, volto à carga, pela última vez e por bons motivos. Depois do post "Dificuldades" do Terras do Nunca, percebi que contribuí para alguns equívocos desnecessários. Parece que no registo privado fui muito mais bem sucedido. Sendo assim, peço desculpa por vos maçar de novo com este assunto, mas como o visado do seguinte mail exprimiu a sua pena pelo mesmo não ser um post, já que concorda e gostaria de o subscrever, achei que lhe devia o gesto de transformar o mail em post:
Caro JMF,
A minha ideia era exactamente demonstrar como os epitetos "esquerda, direita, conservador, liberal,..." são, por vezes, um problema maior que as ideias por detrás deles. Não faço parte daqueles que dizem que isso (esquerda/direita) já não se usa. E arrisco com algum atrevimento, que me é dado pela leitura do que tem escrito no blog, que o meu caro amigo também não se revê nessa formulação. Concordo plenamente quando diz que não vale a pena continuar a discussão. É de facto estéril.
Não me conhece, também não o conheço a si, não conhecemos muitos dos bloguistas com os quais debatemos. É fácil, e muitos fazem-no, classificar tudo como esquerda ou direita, sem atender a todas as outras dimensões. O estudo americano, provavelmente sem intenção dos autores, veio "dar gás" à redução que fez no seu título, evocando a dimensão patológica. E eles, percebendo o abuso, desmentem-no, com todas as letras.
Não é de agora, sempre me fez confusão o lançamento de termos da psico-patologia para a praça pública sem qualquer contextualização. Veja-se o caso triste do termo pedofilia. Um desgraçado que sofra mesmo de pedofilia (perversão que não significa de modo nenhum o acto do abuso sexual) viu acrescentar-se nestes anos mais uma dimensão de sofrimento à que já tinha, por via da doença: a marginalização, a exclusão social. Exagero, eu sei, não estou a dizer que é comparável, é apenas uma sensibilidade que adquiri. Não sendo profissional da área, tenho alguma formação e, acima de tudo, gosto pelo estudo do comportamento humano.
Quanto à questão da rigidez de carácter, ou de convivio com a ambiguidade (apesar de tudo prefiro a palavra incerteza), ou com a morte, mais uma vez me atrevo a pôr-me ao seu lado. Não sei se isso passa no Alfacinha, mas esforço-me por não usar muito a ironia, o sarcasmo, e sobretudo falar mais das incertezas que das certezas (que tenho muito poucas). Constantemente me debato entre uma esquerda de formação e uma direita de sedução, para voltar às simplificações. Há dias em que acordo conservador e me deito liberal. E isto não é jogo de palavras, é sincero, corresponde a um estado (que julgo adulto) de recusa dos tais confortos ideológicos de que falava o outro. Mais uma vez, é abuso pensar que não sente como eu? (sentir, não pensar)
Desculpe se fui maçador, muitas vezes me acusam de ser um chato com esta mania de re-pisar o mesmo assunto vezes sem conta. O que não quero é perder interlocutores como o meu amigo, há poucos na blogosfera infelizmente, com quem se pode falar sem vir logo a pergunta: "de que lado é que tu estás?". Daí a insistência. Daí o R. Wyatt. E muito mais coisas que podemos partilhar concerteza.
Um abraço do,
Alfacinha