Gostaria também de dar uma achega à questão abordada pelo Terras do Nunca, Abrupto e Almocreve das Petas.
O posicionamento político de cada um assenta, em minha opinião, na reflexão prévia sobre o papel do indivíduo face ao colectivo (e vice-versa). Daqui resulta a posição de base, a qual pode ser de direita ou de esquerda. Mais ou menos consciente, é uma espécie de axioma, ponto de partida para o pensamento sobre questões concretas. Neste sentido é político, todo o pensamento e comportamento face a questões sociais.
Mas estamos a falar de seres humanos. A natureza humana é evolutiva, dada a duvidar de tudo, em cada instante. O que hoje é verdade, amanhã, pode não ser. Não existiria civilização, se não se pusesse em causa o que está adquirido. A semente da mudança está sempre naquilo que é seguro, estático. Pode-se aceitar isso, enriquecendo, ou negar, empobrecendo. E aqui podemos perceber outra dimensão individual, que os americanos abordaram, no polémico estudo sobre conservadores e liberais. A minha visão sobre esta dimensão é que ela se refere menos à dicotomia direita/esquerda (ou mesmo conservador/liberal), e mais ao grau de rigidez mental. Penso que nestes termos podemos falar, não de opções politicas, mas sim de formas de pensar. Mais que a mudança em si, o importante é a aceitação do diferente. Se este se constitui como ameaça, ou não. O diferente é sempre uma ameaça para quem não quer olhar para a sua própria dúvida. Desloca-se o ódio que se sente perante a incerteza interna para o outro, constituído como reflexo negativo. É importante que ele exista, e que por sua vez também não se questione. Caso contrário é o vazio.
Considero irrelevante para esta abordagem, obviamente discutível, todo um debate que se possa fazer sobre o centro, se ele existe, onde é que está, se se deslocou, ou não, após o colapso comunista. O resultado dessa discussão não altera a questão de fundo, na minha óptica, que é a maneira como cada actor político decide desempenhar o seu papel. Se o papel é esquerda, direita, liberal, conservador, libertário, não interessa.
Como em quase tudo na vida, existe a coisa e a forma como se lida com a coisa. Neste sentido, admitindo uma radical divergência (politica) entre extrema-esquerda e extrema-direita, percebemos uma aproximação no modo de (não) pensamento. Essa aproximação traduz-se na incapacidade de diálogo, de escuta do outro. Um debate entre um militante (a palavra diz muito. não se conhecem militantes do centro) do Bloco de Esquerda e um Neo-Nazi é uma experiência estéril. Nada de novo surge. De certa forma a existência do Neo-Nazi é fundamental para descansar a mente assustada do bloquista. E vice-versa. Mas, verdadeiramente, não discutirão opções políticas. O modelo de sociedade que ambos defendem, não permite ao indivíduo a discordância. A insistência nas causas das minorias, surge pela impossibilidade de aceitar a pluralidade da maioria. O texto pode ser diferente, mas a declamação enfática é a mesma.
Publicado por Carlos em setembro 3, 2003 01:55 PM Secções Política , Psi , Sociedade