setembro 11, 2003

Confissão de um não Cavalheiro

Em dias de falta de tempo e inspiração, deixo-vos um texto obviamente dedicado a essa instituição chamada Montanha Mágica:

"Das coisas delicadas e fluídas, convém falar com delicadeza e fluidez; por isso formularei aqui, com precaução, uma observação acessória. Em resumo: a felicidade só se pode encontrar nos pólos extremos das relações humanas - onde as palavras não existem ainda ou onde já não existem - no olhar e nos abraços. Só lá se situam o incondicional, a liberdade, o mistério e o entusiasmo irreprimível. Tudo o que existe no intervalo, como contacto e relações sociais, é tíbio e fraco, determinado, condicionado e limitado pelo formalismo e pela tradição burguesa. A palavra, aí torna-se senhora - a palavra, essa intermediária baça e fria primeiro produto duma civilização domesticada e moderada, e tão totalmente estranha à ardente e muda esfera da natureza que cada vocábulo é, de qualquer maneira, uma frase por si e em si."

Thomas Mann, As Confissões de Félix Krull - Cavalheiro de Indústria, Tradução de Domingos Monteiro, Lisboa: Relógio D'Água, 2003

Publicado por Carlos em setembro 11, 2003 01:04 PM Secções Citações
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