setembro 21, 2003

Momento sete - Mãos


Eram duas mãos
E um monte branco de silêncio
Cansados, cobertos de rugas
E ainda abraçadas
Lembro-me delas à tarde
Sujas de poeira e de vento
Aquelas mãos. Sempre dadas
Ás vezes era Inverno e estava frio
E os dedos, relembro
Sempre curvados, como se abraçassem
A voz, até, do pensamento
E eram dois os que pensavam
Naquelas noites em que o sol ardia
Mas só um o sentimento
Por isso às vezes rezavam
Preces rogadas ao tempo
Velhas memórias a arder
Na alma de quem as sabia
E só com a morte ensinadas
Como lendas que se transmitissem
Só a quem as percebia
A saudade que já sinto
Do cheiro a riso e centeio
Daquelas mãos a tremer
Pelas curvas do meu rosto
Que no meu ombro a descer
Eram traves dos meus sonhos
Mas cobertas de suor
Ainda eram sal e alegria
A quando ao meu tronco se abaraçavam
E eu não sabia o que dizer
Cobriam-se de lágrimas e sangue
Porque viam o sol a escurecer...

Luís Araújo, Na Margem do Silêncio, não publicado

Publicado por Carlos em setembro 21, 2003 05:26 PM Secções Citações
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